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2.8.07

Parque Jurassico.jpg

Um parque muito jurássico!

 

Ao adaptar o livro de Michael Crichton, Steven Spielberg recupera uma retrospectiva das suas anteriores fórmulas de êxito. Formulas, essas, que o marcaram enquanto realizador de massas. Um espírito aventureiro de Indiana Jones, a reafirmação dos valores familiares contidos em ET e o confronto com as “forças da natureza” em Jaws (1975), assim como o perigo iminente e todos os tiques hitchockianos de Duel, Jurassic Park é a confirmação de quanto Spielberg pode ser um autor, mesmo que o seu conceito de cinema esteja longe do formalismo autoral. Aliás, o “pai” do conceito blockbuster demonstra a sua garra em requisitar uma obra que funde fantasias jubilantes dignas de “sonhos de criança” com a astúcia e a credibilidade dos melhores contos de ficção científica.

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Nesse termo, a ressurreição dos extintos dinossauros faz-se por uma teoria que pormenorizadamente cientifica seria um absurdo completo, mas enquadrado nesta aventura cinematográfica, flui simbiótica com a credibilidade na mente dos seus espectadores. A febre dos dinossauros tem o seu hino cinematográfico, uma revisão dos “episódios” primordiais do cinema fantástico / terror como The Lost World, de Harry O. Hoyt (1925, baseado num romance de Arthur Conan Doyle), ou até King Kong, de Merian C. Cooper  e Ernest B. Schoedsack (veja-se a referência do gigantesco e icónico portão).

Jurassic-Park-3D.jpg

A ilha fictícia Nebular é o palco perfeito para o último reduto destas bestas pré-históricas, inseridas nos desejos megalómanos de um excêntrico magnata (Richard Attenborough) em construir um parque turístico, único no Mundo. Mas os sonhos transformam-se em pesadelo tal como qualquer incursão de H.G. Wells (nomeadamente A Ilha do Dr. Moreau), as aspirações aos toques divinos que o Homem anseia são entradas directas para verdadeiras “caixas de Pandora” (a ciência é novamente vista como um mau vaticínio).

Jurassic_Park_raptors.jpg

Nunca os dinossauros tiveram tanto impacto no cinema como tiveram nesta visão de Spielberg, e nunca uma aventura no inicio dos anos 90 funcionou tão ricamente plena e assustadora também (nota-se pela primeira aparição do T-Rex). O realizador sabe exactamente onde apostar para fincar esse espírito, nesse caso acentuar o óbvio nos diversos percursos da aventura, os lugares-comuns estabelecidos estampam-se como obstáculos para a maior de todas as jornadas, é que para além do parque e dos animais estrelares, no pano de fundo esconde-se um encontro aos elos paternais. Sam Neil é esse “pai adoptivo”, uma figura central não só para Jurassic Park, assim como a filmografia do cineasta, a busca interminável pela responsabilidade em selar elos afectivos, principalmente na reconciliação da figura paternal. O actor corresponde na perfeição a esses desafios proclamados, mesmo que Steven Spielberg tece por vias desta vertente uma ingenuidade que trespassa o ecrã.

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O maniqueísmo evidente que articula como uma fuga possível às profundidades que se poderia extrair neste “sumo”, é que Jurassic Park nos revela milagres da Natureza mas expõe como um olhar aos limites da mesma, do egocentrismo humano e as suas claras aspiração, o de criar vida. Desde os tempos antigos, o Homem procurou igualara aos feitos de Deus, sendo a Ciência a “porta acessível” para tais devaneios. Mas o maniqueísmo acentuado em Jurassic Park anula qualquer filosofia no campo e aposta em morais simples e de carácter de punição divina, afinal a ganância é um problema crónico nos humanos. “Life find a way”, declara Jeff Goldblum de modo erudito aos feitos vislumbrados neste parque de dinossauros.

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Mas uma coisa é certa, mesmo passados 20 anos, Jurassic Park continua a fascinar com a sua astúcia, o seu ritmo e até mesmo a qualidade dos efeitos visuais, que demonstram mais rigor que muitas das produções actuais, abundantes deste frenesim tecnológico. Cinematograficamente é um mimo, um estatuto que poucos “blockbusters” dos anos 90 conseguem deter actualmente. Até chegamos ao ponto de perdoar as discordâncias nas características das respectivas estrelas do Jurássico e do Cretáceo, existentes no âmbito do espectáculo que Steven Spielberg concretizou.  

 

Real.: Steven Spielberg / Int.: Sam Neil, Laura Dern, Jeff Goldblum, Richard Attenborough, Samuel L. Jackson

 

jurassicCOVERPIC.jpg

8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:19
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3 comentários:
De Rafael a 12 de Agosto de 2007 às 23:24
É sem dúvida um dos meus filmes favoritos! Não apenas pelo fato de trazer os dinossauros as telas, mas também pelo trabalho gráfico em que foi trabalhado, embora suas sequências tenham panoramas que me fazem ir mais longe na imaginação e volta no tempo.


De roberto correia a 19 de Fevereiro de 2011 às 14:52
Com certeza um filme que ficará pra historia. um exemplo de filme cientifico


De Francisco Quintas a 15 de Abril de 2017 às 03:08
Juntamente com Terminator 2 e com The Matrix, Jurassic Park impulsionou os efeitos visuais nos anos 90 e definiu para sempre a "era digital". Só por isso deve ser eternamente apreciado e lembrado! O Spielberg é uma das mentes mais fascinantes que já realizaram filmes desde há muitos anos. Algo que nunca morrerá serão os seus filmes. Juntar "Spielberg" e "filme bom" numa frase é redundante, é um pleunasmo. Boa crítica, porém acho que a minha nota seria mesmo um 10, (ou um A+, como eu prefiro dar com letras).

Abraço


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