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28.8.13

 

Michael Bay: O Ed Wood de hoje? O Kubrick de amanhã?

 

Aquilo que hoje não é valorizado pode ser daqui a uns anos valorizado, até se transformar em qualquer tipo de arte. Nesses termos acredito que Michael Bay poderá ser num futuro próximo um autor de renome, talvez um pioneiro do seu próprio cinema de acção. É um facto de que Hollywood está escassa de ideias e é também um facto de que cada vez mais o cinema de acção hollywoodesca é gradualmente mais energética, "videoclippeira" e alucinada e Michael Bay enquadra-se perfeitamente nesses termos. Actualmente considero que o autor é uma espécie de "criança com uma câmara de filmar", a sua mente precoce faz dele um realizador imaturo, por vezes distorcido como por vezes inconclusivo em transmitir algo mais dramático e profundo que meras imagens em movimento. Podemos ter em conta que dirigiu obras como Armageddon, Bad Boys e a trilogia Transformers, qual têm em comum de terem sido grandes êxitos de bilheteira, não apenas nos EUA mas como no resto do Mundo, integrando uma categoria de cinema-pipoca, fast-food cinematográfico de mainstream acentuado e de fácil comercialização. No curioso caso de Transformers, Bay atingiu o seu pico de "grandeza", conseguindo transformar uma linha de brinquedos de sucesso num retrato pouco lúcido do seu cinema estilístico. O realizador norte-americano que parece voluntariamente parodiar a própria opulência produtiva de Hollywood, invoca a sua personalidade fílmica através de sequencias de acção a velocidade e hiperactividade incríveis, bonecos unidimensionais ao invés de personagens e elementos como esterilização estética e puro sexismo.

 

 

Em Transformers tais elementos encontram-se mais que presentes, convertendo a saga dos robôs alienígenas em um intenso estudo de "mau cinema". Poderia existir aqui uma desculpa de que tão trabalhados são os efeitos visuais, contudo quem realmente encontra-se apurado na Sétima Arte tem a noção que os atributos técnicos, por si, não compõe um filme, tirando as imagens CGI, a trilogia que rendeu mais de 2 biliões de dólares em todo o Mundo a Michael Bay é propícia em momentos equívocos do cinema norte-americano, desde a fraca concepção de personagens, todos eles movimentados pelos estereótipos que emanam e por fim um atropelamento narrativo, onde o climax é precoce e o desenvolvimento da trama se perde entre futilidades, tiques do realizador e improvisos a foro comercial. Para além disso é difícil de perdoar em Bay o crescente machismo que invoca nas suas incursões, a escolha de "actrizes" não pelo seu talento interpretativo mas sim pelo atributo estético como meros atractivos de teor sexual. Com Pain and Gain, aquele que supostamente seria o seu período mais calmo, sóbrio e de autor, é em todo o caso mais do mesmo nos termos cinematográficos de Michael Bay.

 

 

Baseado em factos verídicos, a historia de três bodybuilders que decidem envergar no mundo do crime através de "golpes", se revela nas mãos do realizador num festim de artifícios que impedem a narrativa de fluir (nota-se o exagero de narrações voz-off e distractivos desvios como se o autor não conhecesse nada de cinema para além dos blockbusters). Numa estética visual algo irritante que não só torna Miami em mais um cenário "pastiche", mas que revela a futilidade da trama que parece ser algo ofuscado aqui, "martelado às três pancadas" por um desenvolvimento tão digno como um videoclipp prolongado, o qual climax parece ser mera fantasia. Tudo leva a crer que Michael Bay teve intenções propositadas quando inseriu o seu tão estilístico slow-motion e outros tiques sob um conjunto de risíveis diálogos que nada de proveitoso retiram na premissa. Este é um daqueles casos em que os factos verídicos são mais impressionantes que a própria demanda cinematográfica, uma fita prejudicada pelos defeitos que já havia referidos e por um realizador que se tenta passar por aquilo que não é. Um esteticista fascista com o mínimo de respeito pela palavra de entretenimento, o confundindo como meros truques de câmara e manipulação da mesma. O que salva mesmo o filme da ruína total é o seu elenco, desde um carismático e energético Dwayne "The Rock" Johnson, um Shalhoub que se revela num one-man-show e um Ed Harris que mesmo sob efeitos automáticos tende em melhorar certamente a fita. Quanto a Mark Wahlberg, a interpretação que se podia esperar de um actor medíocre, insonso e egocêntrico.

 

 

Em suma: Pain and Gain é um filme "vendido" que pretende ser algo mais do que aquilo que é. Mas a verdadeira questão aqui é tendo em conta que existe filmes e autores que só com o passar do tempo serão valorizados, será Michael Bay o incompreendido do século XXI? Será que a sua arte fílmica é demasiado vanguardista mesmo para os tempos que decorrem? Só o tempo dirá, mas por enquanto a o realizador de Transformers incute uma involuntária paródia a Hollywood, que é a sua carreira.

 

"I'm Daniel Lugo, and i believe in fitness"

 

Real.: Michael Bay / Int.: Mark Wahlberg, Dwayne Johnson, Anthony Mackie, Tony Shalhoub, Ed Harris, Rob Corddry, Ken Jeong

 


 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 22:40
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1 comentário:
De Nóbrega a 31 de Agosto de 2013 às 21:09
Não gosto de impor verdades, principalmente relacionadas ao futuro, pois se há algo em nossa realidade isso é a inconstância. Mas em relação ao Michael Bay, sinceramente, essa é minha opinião:

Michael Bay simplesmente traz uma receita de personagens unidimensionais, com histórias fúteis e rasas, sem a menor pretensão de impor qualidade ou muito menos profundidade, mas com diversão e explosões suficientes para atrair o público aos momentos, principalmente entre os espectadores mais descompromissados com uma história.
Receita essa que já existia, mas que ele a trabalhou ao primor do câncer cinematográfico.
Lembra de Idiocracy, naquela cena que o filme de uma bunda é recorde de bilheteria? Pois é, essa é minha imagem da "Herança de Michael Bay".


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