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27.8.13

A naturalidade do cinema!

 

Há cerca de um mês atrás estreava entre nós a ficção portuguesa O Bairro da autoria de Francisco Moita-Flores, uma série destinada à televisão de 20 episódios que foi convertido a uma "re-colagem" cinematográfica. A "fita" nos presenteava uma Maria João Bastos como líder de uma gang com diversas tarefas ilícitas na agenda, mas acima de tudo se comportavam como "anjo da guarda" de um bairro social lisboeta, produto imaginado com tamanha surrealidade do quotidiano português. Combinando de um lado o "wanna be" fantasioso para com o cinema norte-americano mainstream com a estrutura e inerência de uma telenovela habitual dos nossos canais generalistas, O Bairro foi um Infeliz exercício como também de desprezo para com a realidade portuguesa.

 

 

Distanciamento a léguas de tal factor parece ser uma "meta" cada vez mais penetrada no grande ecrã pelas grandes produtoras nacionais, contudo Basil da Cunha, com um currículo de mais de 15 curtas, mostra a tudo e todos que mesmo sem as verbas nem os patrocínios  destes "gigantes nacionais" consegue invocar a verdadeira essência do "outro lado", a faceta longe do "faz-de-conta" das telenovelas e do país fantasioso que emane, com a sua primeira longa-metragem, Até Ver a Luz. Rodado aos arredores da Amadora, num "infame" bairro da Reboleira, o luso-suiço Basil da Cunha concentra um cinema artesanal mas fiel aos seus códigos genéticos, "descortinando" num cenário perfeito para "pastiche", um leque algo invulgar de personagens singulares que roçam o estereotipo mas se esforçam em sair dessas "capas de senso comum".

 

 

O facto do realizador viver nessa mesma comunidade aufere-lhe força em implodir credibilidade a este sistema biótipo, recriando um palpável território cinematográfico incutido neste quadro de exclusão social, debruçando em situações que cada vez mais as pseudo-produções nacionais evitam ou amenizam. Esta é uma história de influências às mitologias nipónicas fundidas com os seus personagens, "samurais marginais que bailam ao luz da Lua", claras referências ao cinema de Kurosawa e de Jarmusch, evidenciando assim o conhecimento de Basil da Cunha que reflecte a sua linguagem cinematográfica neste cenário de desolação social.

 

 

Um "entranhar" por um comunidade rica munida pela violência, bem concretizada (apesar dos planos fechados limitarem a sua eventual abrangência) e articulada pelo realizador de uma forma motivadora e deveras vanguardista (as opções destes em concentrar o elenco em "não-actores" e 80% do filme seja falado em "crioulo", tornam Até Ver a Luz num exercício naturalista). Uma entusiasmante primeira longa-metragem a não perder e a merecer devida valorização em tempos futuros. O La Haine português!

 

Real.: Basil da Cunha / Int.: Pedro Ferreira, João Veiga, Nelson da Cruz Duarte Rodrigues 



 

7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:57
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