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18.5.13

Os loucos anos 20!

 

Os puristas do incontornável romance de F. Scott Fitzgerald, The Great Gatsby, deviam ter posto as mãos na cabeça no preciso momento em que é revelado Baz Luhrmann como realizador de uma nova adaptação cinematográfica do clássico da literatura norte-americana do seculo XX. Servido de conversões cinematográficas fracas e sem força inerente, os fãs da ascensão e queda de Gatsby teriam agora o mesmo realizador de Moulin Rouge e Australia, um eterno amante do teatro e do espectáculo cénico a criar a sua interpretação da obra que supostamente previu a Grande Depressão. Publicado em 1925, The Great Gatsby tornou-se numa crítica algo irónica ao cinismo e os excessos inconsequentes dos loucos anos 20, as festas desvairadas acumulavam uma certa pseudocultural e Gatsby, um bilionário bem à imagem da monarquia europeia, megalómana personagem que persegue incontrolavelmente uma luz inalcançável do outro lado do porto. Fitzgerald é ácido e implacável na sua visão, constituindo a sua estrutura narrativa com as mais diversas personagens ambíguas, todas elas alusões à realidade norte-americana que o autor vivia.

 

 

Se por um lado, Luhrmann era o homem capaz de transmitir o ambiente natural de Gatsby, transmitindo as fantasiosas festas dos anos 20, um alusão babilónica da sociedade, factor que as adaptações anteriores nunca conseguiram converter, tal como foi visto nas suas obras anteriores, o autor tem uma certa queda para o exagero visual e cénico, e não é por menos que donde a sua visão The Great Gatsby destaca dos demais, sua fraqueza se torna. Eis uma obra plástica, visualmente irrepreensível, coreograficamente musical parecendo ter saído de um cabaret carnavalesco e uma banda sonora tão anacrónica que “esquarteja” desde início o clima digno destes anos supostamente prósperos para os EUA. Um fascínio visual que deixa tudo a perder qualquer pretensiosismo narrativo, por outras palavras a própria narrativa é prejudicado pelos desvairos do seu realizador, depois aquela opção pelo cinema tridimensional, um dos melhores exemplos dos últimos anos, mas desnecessário para um tipo de obras como esta.

 

 

Os fãs de F. Scott Fitzgerald tem motivos para preocupar, The Great Gatsby é um embuste cinematográfico, uma plasticidade cinematograficamente técnica a evidenciar uma Hollywood tão fora de si. Mesmo assim são nos desempenhos sofisticados desta nova visão que nos remete a sua vertente menos contrafeita. O regresso de Leonardo Di Caprio à alçada de Baz Luhrmann, 17 anos depois da cooperação noutra adaptação de um grande clássico literário, Romeo + Juliet de William Shakespeare, o actor conseguir transmitir um solido e perfeito Gatsby, sendo que a sua própria figura artística parece ser simbiótica com a personagem literária. Carey Mulligan traz nova vida a uma personagem ambígua, confrontando-se com uma dualidade que irá surpreender o espectador, principalmente aqueles que não leram a matéria-prima, por outro lado Tobey Maguire ao encontro com a maturidade, se revela promissor mas pouco objectivo.

 

 

Em suma, The Great Gatsby, o incontornável livro do seculo XX, padece no vazio narrativo e no universo “faz-de-conta”. Baz Luhrmann aplica o seu cinema e perde assim qualquer solidez de interpretação ao romance de F. Scott Fitzgerald. Desperdiça-se matéria, desaproveitar um potencial filme e gere um produto bem colorido e musicalizado cheio de luxo e excentricidades. The Great Gatsby merecia um autor mais sóbrio.  

 

“You can't repeat the past.”

 

Real.: Baz Luhrmann / Int.: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton, Elizabeth Debicki, Isla Fisher, Jason Clarke, Amitabh Bachchan



 

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Australia (2008)

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:35
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