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30.5.16

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"Rico, qual é a principal diferença moral entre um cidadão e um civil / Um cidadão assume total responsabilidade quanto à defesa politica, o civil não."

 

É fácil sentirmo-nos repugnados com Starship Troopers, o filme de Paul Verhoeven que não ostentou fascínio durante a sua data de estreia, até porque o realizador holandês a operar em Hollywood era visto nada mais como um voyeurista maldito, a juntar a isto o flop colossal de Showgirls. Mas não são o único factor que fecundou um injustiçado massacre a esta pseudo-ficção cientifica, não senhor, as acusações de fascismo era coisa que não faltava entre os insultos. Mas com o passar de quase 20 anos, olhamos para Starship Troopers não como um filme que lisonjeia o fascismo, mas sim como uma obra sobre o fascismo, e a sua aceitação, deveras normal, que causa no espectador uma tremenda sensação de incomodo. Porquê que estes soldados atacam insectos alienígenas? Qual o objectivo? O que é que fazemos no seu habitat natural?

 

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Verhoeven criou uma falsa propaganda, prolongada por um cínico magnetismo pela militarização, são as forças armadas, ditadas por autênticas lavagens cerebrais sociais, e fortalecidas por uma intolerância antropocêntrica. Com duas décadas em cima, este seja talvez um dos filmes mais actuais do realizador que nos dias de hoje tem sido alvo de uma reavaliação. Afinal, Verhoeven não é assim tão maldito como pintavam e a prova esteve no último Festival de Cannes com a sua nova obra integrada na Competição Oficial. Elle [ler crítica], título desta nova produção, apresentou um cenário bem diferente do habitual na carreira do realizador, foi unanimemente elogiado.

 

Durante a conferência de imprensa, Verhoeven foi confrontado coma questão de um eventual regresso a Hollywood, território que deixou em 2000 com o ainda malfadado The Hollow Man (O Homem Transparente). A resposta foi dada da seguinte maneira: com desejo de retornar ao país dos seus êxitos (quem não se lembra de Basic Instinct, Robocop e Total Recall), o realizador apenas expressou que de momento não recebera nenhuma proposta decente (indecente), enumerando o facto dos filmes de super-heróis dominarem o mercado hollywoodesco.

 

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A ponte aqui estabelecida entre dois filmes completamente distintos, é o fascismo representado em Starship Troopers, exposto para eventuais alvos críticos e o fascismo não assumido que um produto como Captain America: Civil War [ler crítica] ostenta, mas que passa despercebido pela crítica, porque simplesmente muitos dos órgãos preferem lançar conhecedores de BD e não de Cinema em geral. Para além disso, muito dos críticos norte-americanos fogem da militância politica assim como o Diabo foge da cruz.

 

Mas afinal o que há de errado com Civil War da Marvel? Primeiro, quando tentamos avaliar um filme destes deparamos sempre uma legião de "marias-ofendidas" que nos apresentam a ideia que para avaliar é preciso ler uma BD, partindo do principio que no caso do material adaptado, a matéria-prima é sempre boa. Errado. Mas a questão não está em bater num filme de super-heróis como um hater qualquer, mas especificar porquê que Civil War é dos piores filmes do subgénero dos últimos anos, e falamos obviamente no sentido ideológico, social e político, esses inúmeros factores que uma Empire Magazine gosta tanto de esquivar.

 

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Ao contrário da série de BDs originais, esta adaptação não refere a nenhuma Lei de Registos de Super-Humanos com tamanha supervisão do Governo dos EUA, não, somos apresentados a uma ameaça real, a ameaça de uma elite de "soldados", chamaremos assim, que podem combater em qualquer lugar do Mundo sem o mínimo de responsabilidade, quer governamental, quer humanitária. Um dos exemplos do filme dos irmãos Russo encontra-se nas primeiras sequências, onde uma missão em Lagos dá para o torto resultado numa centena de vitimas civis fruto de uma negligência de um dos seus "protectores". Danos colaterais como alguns apelidarão.

 

Se os Russos fossem frontais como Verhoeven (e se a Disney deixasse), poderiam utilizar esse tópico como um balançado dilema ao longo da narrativa, porém, não é isso que acontece. Capitão América, o grande herói da malta, é incutido como uma voz dominante da razão, proclamando diálogos de liberdade sob a bandeira estaduniense estampada no seu peito. Afinal o Capitão não gosta de receber ordens, nem sequer ser coordenado pela ONU, o seu ideal é combater onde bem apetecer e sob os seus reflexos políticos, até porque o maniqueísmo existe aqui com fartura.

 

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Apesar de ser um filme esteticamente limpo (pudera, a Disney está interessada em vender brinquedos aos mais novos), tal serve como uma bandeja esterilizada para tais ideais. Traduzindo por miúdos, de como a ONU é má para o totalitarismo destes vigilantes e como os super-heróis podem matar pessoas sem qualquer tipo de responsabilidade nem monitorização. É algo perigoso, porque aqui não existe nenhum senso crítico ou alvo incomodo como o que Verhoeven fez com o seu Starship Troopers. Em tempos de Donald Trump e depois das lições aprendidas com a "invasão" das tropas norte-americanas no Iraque sob o argumento, ainda não provado, de armas de destruição maciça, coisas como este Civil War conseguem tornar-se filmes perigosos. Estarei a ser demasiado alarmante ou realmente existem filmes fascistas disfarçados como produtos para inúmeras idades.

 

Agora já sabemos o porquê de Verhoeven recusar fazer um filme de super-herói actual, visto que está impedido de desconstrui-los ideologicamente.

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:00
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29.5.16

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Jeff Bridges, o eterno The Big Lebowsky, vai participar na sequela de Kingsman: The Secret Service, o filme de espiões britânicos que se tornou num dos mais inesperados êxitos de 2015, tendo rendido mais de 414 milhões de dólares em todo o Mundo. O anúncio desta nova aquisição foi feito pelo próprio actor por vias da sua conta de Twitter.

 

Nesta continuação, Kingsman: The Golden Circle, contaremos novamente com as presenças de Taron Egerton, Colin Firth e Mark Strong. Julianne Moore será a grande vilã, e Hale Berry, Elton John e Channing Tatum serão outras novas caras nesta sequela. Matthew Vaughn estará de volta à realização.

 

Kingsman: The Golden Circle tem estreia prevista para Junho de 2017.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:15
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28.5.16

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Foi divulgado o primeiro trailer de Morgan, o filme que será dirigido por Luke Scott, o filho do veterano realizador Ridley Scott (The Martian).

 

Apesar desta ser a sua primeira longa-metragem, Scott já teve contacto com o Cinema através da direcção de alguns episódios da série The Hunger (baseado num homónimo filme de Tony Scott, o seu tio), da curta-metragem Loom e ainda fora assistente de realização em Exodus: Gods and Kings e director artístico do flop 1492 - Cristovão Colombo.

 

Em Morgan seguimos uma profissional na resolução de problemas empresariais (Kate Mara) que desloca-se para um laboratório, situado numa localidade secreta, para avaliar um "ser" de Inteligência Artificial (sim, isto cheira a Ex Machina).

 

Toby Jones, Paul Giamatti, Jennifer Jason-Leigh, Rose Leslie e Chris Sullivan completam o elenco. Estreia agendada para Setembro deste ano.

 

 

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27.5.16

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O actor Colin Firth poderá participar no filme sobre a tragédia do Kursk, o submarino nuclear russo que naufragou em 12 de Agosto de 2000, que se encontra a ser preparado pela Europacorp (produtora gerida do Luc Besson). A obra será dirigida por Thomas Vinterberg (Jagten: A Caça). O filme terá rodagem em inglês.

 

O desastre vitimou mais de 118 homens, sendo que 95 tiveram morte imediata, enquanto os outros 23 resistiram às explosões (segundo os relatos foram duas, mas existe hipóteses de uma terceira) e refugiaram num dos compartimentos, resistindo por mais de oito horas. Actualmente não sabe-se ao certo quais as causas que levaram a este episódio fatídico da Marinha Russa, mas existem teorias de que o incidente ocorreu durante o lançamento de torpedos, este teria explodido na proa, atingindo ainda outros compartimentos da belonave.

 

O argumento é da autoria de Robert Rodat (Saving Private Ryan), e tem como base um livro de  Robert Moore sobre a tragédia: A Time to Die. 

 

 

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25.5.16

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Penelope Cruz e Javier Bardem vão protagonizar o primeiro filme de língua espanhola de Asghar Farhadi, o realizador iraniano que consagrou dois prémios no último Festival de Cannes com o seu The Salesman. A obra será produzida pela El Deseo, a produtora gerida por Pedro Almodôvar e o seu irmão Agústin, e pela Memento Films.

 

De momento Asghar Farhadi terminou o guião e arrancará as rodagens já no próximo mês, em Espanha. A história seguirá uma família de viticultores num meio rural.

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:53
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Uma loucura colorida!

 

Se a primeira versão "artificial" de Alice in Wonderland não fascinou de todo, apesar do sucesso comercial, este segundo filme, que requisitou somente o título de outro livro de Lewis Carroll, é uma autêntica "trapalhada" estrutural. Agora sem Tim Burton e com James Bobin, o mesmo realizador das duas longas-metragens dos The Muppets: Os Marretas, Alice Through the Looking Glass arranca com uma Alice (Mia Wasikowska) emancipadora, mulher brava e maruja que faz corar qualquer "gentleman" do Império Britânico.

 

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Depois de um gosto a "Marco Polo" (só um gostinho), a nossa protagonista encontra-se novamente forçada "a qualquer coisa", o resultado é uma ida ao Outro Lado do Espelho e um regresso ao tão batido País das Maravilhas para salvar um velho amigo. Com viagens no tempo à mistura e os mesmos vilões de sempre, este é uma filme de teor fantástico que nunca usufrui dessa mesma camada. Demasiado dependente dos efeitos especiais que servem de farinha para uma fraca composição de ingredientes, como um inexistente senso de aventura, personagens de uma descartabilidade vergonhosa e um argumento, apesar das suas luzes, tão previsível como uma grelha televisiva domingueira. Neste boom de cores e pirotecnia, apenas Sacha Baron Cohen é levado a sério numa personagem caricata.

 

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O resto é pura e simplesmente "mais do mesmo", sem a graça, sem a ousadia do conto original (há quem ainda confunda o livro de Alice no País das Maravilhas como uma proposta infantil, esquecendo das suas raízes alusivas), nem sequer a frescura de outrora. Eis uma sequela desnecessária, que ficará marcada num futuro próximo como a última contribuição do actor Alan Rickman.      

  

"You've been gone too long, Alice. There are matters which might benefit from your attention. Friends cannot be neglected. Hurry."

 

Real.: James Bobin / Int.: Mia Wasikowska, Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Sacha Baron Cohen, Rhys Ifans, Ed Speleers, Timothy Spall, Alan Rickman, Andrew Scott, Stephen Fry, Michael Sheen

 

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4/10
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23.5.16

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Foi divulgado o primeiro teaser trailer de Beauty and the Beast (A Bela e o Monstro), a próxima adaptação live-action da Disney.

 

Tal como aconteceu com Cinderella e The Jungle Book, esta nova versão será mais fiel à respectiva animação do que propriamente ao original conto. Emma Watson será a protagonista ao lado de Dan Stevens , Luke Evans, Ian McKellen, Ewan McGregor, Emma Thompson, Kevin Kline e Stanley Tucci completam o elenco.

 

A Bela e o Monstro” será dirigido por Bill Condon (Kinsey, The Twilight Saga: Breaking Dawn) e tem estreia prevista para Março de 2017.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:13
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22.5.16

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Dez anos depois da surpreendente vitória de The Wind that Shakes the Barley, o cineasta irlandês Ken Loach volta a receber a Palma de Ouro com o I, Daniel Blake, o grito de protesto de um desemprego contra um sistema burocrático e humanamente frio que é a Segurança Social.

 

Entre os premiados da 69ª edição do Festival de Cannes, conta-se outras surpreendentes triunfos, entre os quais Juste la Fin du Monde, de Xavier Dolan, com o Grande Prémio de Júri, e o apupado Olivier Assayas como Melhor Realizador por Personal Shopper, prémio que partilhou com Cristian Mungiu (Bacalaureat).

 

Destaque ainda para Jaclyn Jose como Actriz em Ma'rosa, de Brillante Mendoza, que superou as muito cotadas Isabelle Huppert (Elle) e Sónia Braga (Aquarius).

 

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Palma de Ouro

I, Daniel Blake, de Ken Loach

 

Grande Prémio do Júri

Juste la fin du monde, de Xavier Dolan

 

Prémio de Melhor Realizador

Cristian Mungiu (Bacalaureat) e Olivier Assayas (Personal Shopper)

 

Prémio do Júri

American Honey, de Andrea Arnold

 

Prémio para Melhor Argumento

Asghar Farhadi, por The Salesman

 

Prémio de Melhor Actor

Shahab Hosseini (The Salesman)

 

Prémio de Melhor Actriz

Jaclyn Jose, por Ma'Rosa, de Brillante Mendoza

 

Câmara de Ouro para Melhor 1ª obra

Divines, de Houda Benyamina

 

Palma de ouro para Melhor Curta-Metragem

Timecode, de Juanjo Giménez

 

Palma de Ouro de Honra

Jean-Pierre Léaud

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:35
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21.5.16

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A história de um pugilista com chances para vencer o campeonato de pesos-leves mas que preferiu o amor de uma mulher, venceu o Grande Prémio da secção Un Certain Regard. O finlandês The Happiest Day in the Life of Olli Maki (Hymyileva Mies) foi anunciado assim como o grande vencedor do certame, segundo o júri presidido pela actriz suiça, Martha Keller, “onde cada filme se tornou numa rica experiência cinematográfica”. Destaque para La Tortue Rouge (The Red Turtle), uma animação sem diálogos dos estúdios Ghibli que tem conquistado o público e a crítica, vencedor do Prémio Especial, e Matt Ross como Melhor Realizador pelo seu trabalho em Captain Fantastic.

 

 

Prémio Un Certain Regard

The Happiest Day in the Life of Olli Mäki

 

Prémio de Júri

Harmonium

 

Prémio para Melhor Realização

Matt Ross, Captain Fantastic

 

Prémio para Melhor Argumento

Delphine Coulin e Muriel Coulin, The Stopover

 

Prémio Especial

The Red Turtle

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:48
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21.5.16

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O desejo é algo indescritível!

 

Durante a sua carreira, ao holandês Paul Verhoeven foram atribuídos diversos "gloriosos" nomes: sexista, homofóbico, voyeurista, sádico, mau gosto, etc. Mas de uma coisa é certa, não lhe podemos negar o adjectivo de ousado e neste Elle, visto como o seu grande regresso ao cinema, a irreverência é o ingrediente que não falta.

 

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Com mais de cinquenta anos de experiência no cinema, o anterior e "maldito" realizador de Showgirls vira o jogo num mundo descrito pelo politicamente correcto e sobretudo pela hipocrisia. Essa partida joga a três: Verhoeven, a actriz Isabelle Huppert e o espectador, este último constantemente desafiado através dos outros dois "parceiros" pelos parâmetros maleáveis da demência (socialmente inaceitável) da sua protagonista. Trata-se de uma mulher forte, longe do heroísmo romantizado de Hollywood, ambígua (com o seu "quê" de psicótica) e sexualmente activa. Sim, é essa principal característica que coloca a personagem de Isabelle Huppert à frente de enésimos retratos feministas. Ela é sim uma perversa sexual, ou simplesmente (para não cairmos em julgamentos morais), uma mulher com  necessidades simples (se a personagem de Huppert fosse um homem não suscitaria tanto choque), dependente e independente do "cromossoma Y".

 

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Elle arranca com uma violação, um acto medonho de invasão sexual que automaticamente começa a perseguir Michelle (Huppert) e a tomar as suas próprias fantasias. Ao contrário de uma enésima variação de I Spit on Your Grave, este definitivamente não é um ensaio de vingança nem uma ode justiceira dos direitos das Mulheres oprimidas, trata-se sim de uma longa fantasia, mórbida para os mais sensíveis, que adquire os eventuais toques do síndroma de Estocolmo. Isabelle Huppert veste a pele desta personagem como ninguém, desta forte mulher do cinema, que sob algumas réstias da anterior Catherine Tramell (personagem de Sharon Stone em o Basic Instinct) domina num mundo supostamente dominado por homens. Ela é um hino da verdadeira emancipação feminina, e simultaneamente é a mais frágil vítima desse mesmo estatuto. O trabalho de Paul Verhoeven é definitivo, a criação da personagem assim como a tensão psicológica que a culmina, uma sólida ponte entre o ecrã e o espectador, tornam este thriller sagaz, ritmado e degustável sob variados paladares.

 

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Ora são os momentos dignamente screwball, ora é a veia mais arquitectónica do thriller hitchockiano, ou os devaneios voyeuristas merecedoras do realizador. Porém, em Elle não somos induzidos ao intimismo fácil. A personagem apenas deixa-nos conhecer gradualmente, discreta sob o seu perfil, como uma sedução. Somos "fracos" porque cedemos aos encantos desta mesma personagem e da dedicação de Isabelle Huppert em a trazer à "vida". Verhoeven novamente recorre ao seu método quase pornográfico na exploração intrínseca dos seus peões, o resultado é que depois da sedução cumprida somos intrusos na intimidade desta mulher.

 

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Enquanto segue por aí uma fenómeno cinematográfico-literário de Fifty Shades of Grey, onde a mulher é dominada por um homem sob perversões sexuais (apelidando essa vulnerabilidade emocional de "amor", o truque mais barato que pode haver), em Elle, Isabelle Huppert é uma refém dessa perversões, enquanto que, sempre de alguma maneira, tenta resistir a essas ditas fantasias sexuais . Despreocupada, livre, firme e activa, o novo filme de Paul Verhoeven consegue ser o mais recente grito ao papel da Mulher do cinema. Um regresso e "pêras"!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Paul Verhoeven / Int.: Isabelle Huppert, Virginie Efira, Christian Berkel, Anne Consigny

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 14:11
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20.5.16

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A inesperada face de Sean Penn!

 

Por onde devemos começar? Pelo facto de Sean Penn, mesmo sob o pretexto de amor ONG, não conseguir esconder um espírito colonialista de uma África auxiliada pelo Ocidente? Pelo seu activismo politico e social com discursos de bolso sobre a ajuda humanitária aos Refugiados e à pobreza mundial? As boas intenções que não conseguem disfarçar o baratismo sentimental como dispositivo de comoção direccionado ao público das mesmas notícias de telejornais? Pelo enésimo branqueamento, literalmente falando, de uma África cinematográfica e problemática? Ou pelos diálogos incrivelmente bacocos e deslavados perante tanta "pirosidade"?

 

Sim, The Last Face é algo indescritível, o cinema volta a mostrar que pouco sabe de África para além dos estabelecidos lugares-comuns da eterna consciência branca. Sean Penn, defraudado com o seu "high moral ground", convencido que as boas intenções pagam a passagem ao barqueiro, incute um romance desproporcional tal como acontecera anos antes em Beyond Borders (Martin Campbell, 2003), onde Angelina Jolie e Clive Owen apaixonam-se para além das barreiras. Este não é o Penn que conhecemos, o realizador de Into the Wild, é antes um orador de um discurso activista com mais chance de irritar do que propriamente "mudar o mundo".

 

Uma colecção de "porverty porn" e de desgraças com mais noção hollywoodesca do que propriamente a criação de uma crítica / denúncia social. Nesse sentido, Beasts of No Nation é mais directo, sem a necessidade de condimentos românticos nem personagens ocidentais como atractivos de marketing. Até porque a África actual está longe do romantismo colonial de outrora, daquela "fantasia exótica" que os portugueses tanto adoram invocar nos seus filmes de época (Cartas da Guerra, Tabu, Costa dos Murmúrios). Isto é um assunto sério, a nível global, como também é desprezado por essa mesma escala. Tal como a canção colectiva "we are the world, we are the children", o mundo não muda com cantigas. O paternalismo hippie -  make love, not war -  aludido à primeira legenda deste filme, prevê o fracasso de todo o tamanho que este The Last Face iria se tornar.

 

Nem mesmo Javier Bardem e Charlize Theron safam-se a este grave atentado, a este Sean Penn "bêbado" que se julga Terrence Malick em causas humanitárias. Falando em atentados, ver a "promissora" actriz Adéle Exarchopoulos, presente no elenco só como garantia de co-produção, é o equivalente a esfaquear o meu coração com uma faca de manteiga. Matem-me, por favor!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Sean Penn / Int.: Charlize Theron, Javier Bardem, Adèle Exarchopoulos, Jean Reno, Jared Harris

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 13:45
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18.5.16

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Eis um novo trailer oficial da versão feminina de Ghostbusters: Caça Fantasmas, por Paul Feig. 

 

Esta sequela / reboot do filme de culto de Ivan Reitman [ler crítica] (que só estará na produção deste novo filme) em 1984, seguirá a mesma linha das anteriores comédia de Feig, referindo obviamente a Bridesmaid ou The Heat, onde é comum elencos maioritariamente femininos e gags de igual género. Melissa McCarthyKristen Wiig, Leslie Jones e Kate McKinnon, serão a nova trupe de "caça-fantasmas". No elenco podemos ainda contar com Chris Hemsworth (Thor), que interpretará a "secretaria" da organização, e ainda Michael Kenneth Williams, Elizabeth Perkins, Andy Garcia e as participações especiais de Sigourney Weaver e de Dan Aykroyd.

 

O filme encontra-se agendado para 14 de Julho para o nosso país.

 

 

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17.5.16

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O cineasta húngaro Béla Tarr vai estar presente na próxima edição do Training Ground, evento educativo paralelo ao FEST ̶̶̶ Festival Novos Realizadores | Novo Cinema, que decorrerá em Espinho de 20 a 27 de Junho.

 

Realizador de obras como Sátántangó (1994), A Londoni Férfi (2007) e Turin Horse (2011), Tarr é um dos mais conceituados cineastas do nosso tempo. Construiu uma carreira a partir dos 16 anos de idade, e desde então presenteou os cinéfilo com filmes caracteristicamente longos, planos demorados e sob uma fotografia preto-e-branco que abordavam questões de filosofia inerente como do realismo temporal. Deixou de filme em 2011, o ano de Turin Horse que venceu o Prémio Especial de Júri em Berlim.

 

Béla Tarr junta-se a outras importantes figuras do mundo do cinema no programa até agora divulgado pela organização do evento como Gareth Wiley (produtor de Vicky Cristina Barcelona), Scandar Copti (realizador de Ajami), Gemma Jackson (designer de produção de Game of Thrones), Joe Walker (editor de Sicario) e Mark Sanger (editor de Gravity).

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:59
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17.5.16

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O cinema brasileiro sob signo aquário!

 

Aquarius responde-nos com exatidão às nossas mesmas expectativas. Derivada à situação actual da politica brasileira, o "impeachment", o golpe de estado, é possível fazer leituras desse género neste grande regresso de Sónia Braga ao cinema. Mas vamos por partes.

 

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Clara (Braga) é uma jornalista e escritora conceituada que vive no apartamento que a viu nascer e crescer, situado no outrora grandioso Edifício Aquarius. Porém, ela é a última habitante dessa estrutura visto que todos os outros foram aliciados e persuadidos por uma construtora com planos para o mesmo edifício. Mas Clara é "sangue-quente", temendo deixar para trás todo um conjunto de memórias vividas naquele mesmo local, mesmo sendo pressionada pela construtora, ela resiste e insurge-se contra os mesmos naquele "edifício-fantasma".

 

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Em Aquarius existe um forte sentimento de que algo antagónico, uma catástrofe, está iminente. Kleber Mendoça Filho desfruta das mais variadas nuances de diferentes géneros para germinar o seu "aquário", uma metáfora evidente sobre a corrupção e o envolvimento furtivo dos lobbies na sociedade que não restringe à mera canção do "coitadinho", nem ao agora vendido registo do "favela movie". O filme cénicamente é interligado com o anterior Som ao Redor, onde o pano de fundo ganha imersão nas suas personagens; aqui, o edifício abandonado - e por vezes "abalroado" por forças amorais e corrompidas (existem sim ataques à indústria pornográfica, o jogo de "favores" e até mesmo à "infestação" do evangelismo como golpe dominador politico) - adquire a relevância de uma personagem. Sónia Braga complementa esse ambiente "vivo", tornando-se na alma de um ser inanimado, que alma é esta?

 

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Mas por detrás desta Clara, a já maior heroína do cinema brasileiro, existe um "grande homem", Kleber Mendonça Filho, que injecta nesta viagem repartida em três capítulos uma subversiva carga política. A acidez da crítica poderá ser comparada com a mera metáfora. Aliás, são estas alusões que nos sentimos seguros face a eventuais propagandas, até porque Mendonça Filho sabe difundir uma mensagem, sem a utilização do óbvio, nem sequer de cair nos devaneios do onírico. Essa frontalidade, nada inquisidora, encontra-se no próprio espaço de Clara, como é evidente na sua sala em determinada cena, onde o filme acumula tamanhas "provocações" ao Brasil "politicamente correcto" que muitas entidades desejam construir. Entre a invocação, sem raiz aparente, surge a menção da homossexualidade, a amamentação (um acto completamente natural que tem sido atacado como um atentado ao pudor) e ainda a limpeza de bebés (uma rara imagem de cinema realista), que fundidos tornam num quadro de sacrilégio para esta cultural tão moralista, este "aquário" social estabelecido.

 

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Aquarius é tudo num só, menos um "filme" no seu sentido mais simplista. É uma força de expressão filmada em estado de fúria, mas cuja cólera é registada com sapiência. Ao mesmo tempo é uma "mensagem numa garrafa", uma obra para perdurar para futuras gerações, assim como a cómoda que acompanhou todo uma árvore geracional de Clara. Um retrato subliminar do estado brasileiro que por sua vez conserva a riqueza da cultura de Recife e imortaliza Sónia Braga como a maior das divas do Brasil. Será muito cedo para falar em obra-prima? Muito bem, arrisco em declará-lo como tal. Que venha então a primeira pedra.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Kléber Mendonça Filho / Int.: Sonia Braga, Humberto Carrão, Julia Bernat, Paula De Renor

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10/10

publicado por Hugo Gomes às 21:43
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17.5.16

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Este não é o Pedro que eu conheço!

 

Tudo indica que Pedro Almodóvar encontra-se incapaz de recuperar o seu estatuto após o malfadado Los Amantes Passajeros, aquele que seria o seu regresso à tragicomédia resultou numa espécie de caricatura de si mesmo. Com Julieta, anteriormente apelidado de Silêncio, e cuja alteração se deveu à futura produção de Martin Scorsese, tinha tudo para recolocar o cineasta espanhol no mapa, ainda mais com a presença do filme na tão desejada Competição de Cannes. A pressão era realmente insuportável, o escândalo dos Papéis do Panamá que trouxeram às manchetes jornalísticas o nome de Almodóvar, e ainda mais a acumulação de repudia que os cinéfilos do seu país têm ultimamente suscistado.

 

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Infelizmente, Julieta funcionou como uma promessa. O resultado, esse, está muito longe das juras de "Pedrito", até porque o seu toque Midas que tão bem se sentiu em obras como Todo sobre Mi Madre e Hable con Ella, está há muito desaparecido. Temos sim o Almodóvar assumidamente clássico, mas temos simultaneamente um homem cansado, pouco inventivo e "encalhado" num universo que prometia ter deixado durante a estreia de La Piel que Habito. Aqui, Julieta é uma personagem dividida entre duas fases temporais narradas através de flashbacks e de diários "bressianos". Deparamos então com a sua juventude (Adriana Ugarte), o período que vive um romance com um pescador e cuja relação gera uma filha, e 25 anos mais tarde, quando se transforma numa mulher envelhecida (Emma Suárez, Tierra), determinada a esquecer os seus mais atormentados fantasmas.

 

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É a revisão narrativa de La Mala Educación consolidando a subtileza de Los Abrazos Rotos, porém, algo realmente falhou em todo este desenvolvimento. De salientar a sua estética presa aos parâmetros televisivos e a fraca aptidão na construção de personagens sólidas e fora dos esboços "almodoverianos" o qual parecem tomar. A sua coloração dá ainda a Julieta uma tendência de masturbação burguesa, até porque esta é a Espanha dos pseudo-cultos, dos sonhos retomados e encarados com imersivo optimismo e da austeridade como fruto fantástico de outros tempos. Tudo indica que esta longitude para uma Espanha real faça que os seus conterrâneos troçem de um dos mais mundialmente famosos realizadores do seu país.

 

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Mas é bem verdade que não existe a necessidade de acorrentar-se ao realismo e esquivar qualquer hipótese de romantismo cinematográfico, nada disso. O pior é quando Pedro Almodóvar prefere fazer telenovelas estampadas em grandes telas, do que propriamente Cinema. O dramalhão trágico sem rigor e com um malabarismo escavacado. Um fracasso!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Pedro Almodóvar / Int.: Emma Suárez, Adriana Ugarte, Rossy de Palma, Inma Cuesta, Darío Grandinetti

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 21:27
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16.5.16

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Um Sexto Sentido!

 

Kristen Stewart é uma "personal shopper", Maureen, uma mulher que se dedica às compras de quem possui um "profile" discreto. Porém, ela é mais que uma mera servente, é uma médium. Os seus "talentos", consideramos assim, sempre a levaram para os mais inesperados encontros com o outro mundo, um lado espiritual que todos duvidam a existência, mesmo ela própria, mas que providenciam fascínio. Quando o seu irmão gémeo - que também partilhava o dom - morre, Maureen adquire uma nova rotina com base numa promessa feita entre os dois. O primeiro a morrer teria que enviar uma mensagem a declarar se existe ou não vida para além da morte, mas para a receber terá que passar as noites na antiga e abandonada casa.

 

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Depois do fabuloso estudo da natureza da interpretação em Clouds of Sils Maria, a dupla Olivier Assayas / Kristen Stewart aposta num thriller sobrenatural que navega impreensionatemente no território autoral. Com um pé sobre esse mesmo registo já estabelecido pelo cinema de Assayas e outro nos lugares-comuns do cinema de terror mainstream, Personal Shopper explicita um cinema diversificado, sem géneros, sem categorias nem audiências definidas.

 

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É uma ode à transgressão e nesse sentido o desempenho de Stewart eleva tal definição. Será este o melhor filme de terror dos últimos anos? Para responder a isso teria que seguir tudo aquilo que a obra desaprova (a categorização), não é nem nunca será um terror de estúdio, nisso estamos certos, e os elementos desse mesmo território são reproduzidos por uma técnica repercussiva. Os clichés tem consequências e é sob essas mesmas que Personal Shopper faz todo o sentido, para além de Assayas ser um conhecedor do medo interior do espectador.

 

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Existem sequências assustadoras, aparentemente vulgares, todavia glorificadas por um impressionante conhecimento no uso e na simbiose do som, da escuridão e por fim, com a sua actriz. Por outro lado, a atração quase adolescente pela espiritualidade, onde um iPhone serve de tábua de ouija em contato com os mais aterrorizantes espíritos ou os "não-vivos", conforme quiserem apelidar.

 

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Essa referência da tecnologia e da comunicação sempre estiveram ligados ao Cinema de Terror nos mais recentes anos, desde as maldições invocadas em Ringu, de Hideo Nakata (recuso a falar da vendida versão norte-americana com Naomi Watts) ou no veia umbilical entre vitima e agressor de um Scream: Gritos, de Wes Craven. Essa remodelação dos códigos, que com o prazo de validade expirado passaram a se denominar de clichés, desafiam Stewart no seu método interpretativo, à constante improvisação da sua perfomance e ao naturalismo do seu ego. Será este o empenho mais ousado da atriz? Só o tempo dirá!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Olivier Assayas / Int.: Kristen Stewart, Anders Danielsen Lie, Lars Eidinger

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 23:35
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Na rota do Novo Mundo!

 

Andrea Arnold estreia em terras norte-americanas com esta "road-trip" sob toques coming-to-age centrado numa América profunda, os EUA "white trash" onde residem os potenciais apoiantes das campanhas eleitorais de Donald Trump. Mas este American Honey, título inspirado numa música de Lady Antebellum, está acima de qualquer ideologia politica. Aliás, de ativismo nada tem, apenas rebeldes sem causa, quase enxertados dos filmes de Nicholas Ray ou do tremendo Badlands, de Terrence Malick (uma provável inspiração), onde o percurso vale mais que o seu próprio destino, se no caso de existir algum...

 

Arnold tem uma "queda", uma fascinação por criaturas raras, personagens que dificilmente captam a simpatia do público. Quando o conseguem, este é um efeito dignamente carnal. São estes jovens que acompanhamos impulsivamente numa direção algo intrusiva e "empestada" por uma colectânea musical que atribui o espírito indomável e hedonista ao grupo. No centro desta jornada a "nenhures", Star (Sasha Lane), uma rapariga de 18 anos, decide certo dia, após o contacto com um grupo de jovens viajantes, largar a sua vida "aprisionada" numa família disfuncional e desfragmentada para embarcar no desconhecido. O desconhecido leva-a a várias cidades do interior dos EUA, tendo como objetivo desta mesma viagem em "família", a venda de inscrições para revistas, uma tarefa inicialmente difícil para Star devido à sua perturbada natureza.

 

Depressa o grupo revela-se numa espécie de tribo, conduzido por regras e "tradições", sendo que entre elas contam-se a imperativa reação a uma música da Rihanna, ou o combate, algo agressivo, dos dois membros mais fracos desse mesmo grupo, tudo em concordância com uma ordem, ou um desordem marginal como quiserem apelidar. O espectador fica a mercê desta "mini-sociedade", "irmãos de sangue e de sémen" sem qualquer perspectiva sócio-politica, até porque a grande veneração aqui é "gozar" os curtos anos de jovialidade, a "frescura" de um mundo ainda por descobrir e de sentimentos ainda por sentir. Serão estes os "meninos perdidos" de Peter Pan?

 

Se o grupo é isento de qualquer resistência, seja ela qual seja, já Andrea Arnold tenta a espaços colmatar as suas ideias, reduzido-as a aspetos cénicos, técnico e sensoriais. Os imensos point-of-view de insectos estabelecem um ponto de contacto com uma sociedade indulgente e futílmente insignificante, e a relação destes com a protagonista provam a sua gradual procura intrínseca, no final a "coisa" evolui, entre as suas mãos já não existe invertebrados, mas sim uma tartaruga como símbolo de uma nova etapa na ainda "verde" vida.

 

No meio desta jornada, ainda deparamos com uma curiosa sequência que liga a Star com o seu lado mais afetivo e emocional, tudo ao som de Bruce Springsteen e o seu "Dream, Baby, Dream", o provável único momento em que o espectador tem a certeza absoluta que a nossa protagonista é mais que uma somente adolescente vazia quase dilacerada de Spring Breakers, de Harmony Korine. Talvez seja algo mais, porém, a sociedade não auxilia qualquer desenvolvimento nas questões da sua identidade. Para finalizar, Shia LaBeouf está em grande, provando que Hollywood não é o único caminho para a eventual imortalização.

 

Filme visualizado na 69ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Andrea Arnold / Int.: Sasha Lane, Shia LaBeouf, McCaul Lombardi, Arielle Holmes, Riley Keough

8/10

publicado por Hugo Gomes às 00:51
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15.5.16

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Era uma vez no … Pico!

 

Três desconhecidos cercam uma isolada casa do Pico (Açores), aguardando pela vinda do seu habitante. O objectivo da espera deste trio - que se conheceram através de casualidades - diverge; um espera somente por dinheiro, outro por vingança e o último por compaixão. Não estava predestinado este dito climax, até porque não foi o destino que juntou estas três caricatas figuras, mas sim um complexo conjunto de acasos que apenas evidenciam que a última obra de Luís Filipe Rocha, Cinzento e Negro, foi "montado" através de ideias dispares.

 

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A segunda colaboração do realizador de A Outra Margem com o actor Filipe Duarte é um misto de western com neo-noir que divaga pela mais antiga das Histórias do Cinema: o golpe e a evasão. As claras alusões às tragédias gregas, nomeadamente ao clássico de Homero, A Odisseia, encontram-se perceptíveis na utilização deste cenário remoto, que quase chama pelos mais longínquos marinheiros e aventureiros. Porém, este Cinzento e Negro ao contrário da ambiguidade que o título parece indiciar é um exemplo afável de ingenuidade no cinema português.

 

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A moralidade, felizmente, é dissipada em qualquer ato, mas o modo como caminha para esse suposto lado negro é de uma construção narrativa débil, onde os amontoados segredos das suas personagens, as suas origens e destinos, um dos ingredientes apostados pelo realizador, estão longe de captar a curiosidade do espectador. Este é um dos exemplos que não adequa à expressão "a curiosidade matou o gato".

 

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Todavia, a fotografia de André Szankowski é uma agradável surpresa, trazendo consigo, principalmente no último tomo, um Pico indomável e intocável pela "mão humana", mesmo que a casa esteja presente no dito "quadro". Os desempenhos são outras valias, não ousando em transgredir as personagens. O indicado foi somente preenchem com rigor estes peões pitorescos, que tal como no filme de Sérgio Leone, Aconteceu no Oeste, posicionam-se para "dançar" com os seus íntimos conflitos.

 

Real.: Luís Filipe Rocha / Int.: Joana Bárcia, Filipe Duarte, Miguel Borges, Monica Calle

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 23:58
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Los Angeles Confidencial!

 

Depois de Deadpool ter demonstrado que os super-heróis conseguem ser indisciplinados, The Nice Guys (Bons Rapazes) é o novo "prego" numa gradual onda politicamente incorrecta que tem dado caras na indústria de Hollywood (bem haja).

 

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Nesta continuação não assumida de L.A. Confidencial, com Russell Crowe de novo como um durão justiceiro (ou algo parecido), a célebre cidade dos Anjos veste agora cores groove como memória a uns libertinos anos 70, aqui a indústria pornográfica expande a todo o gás e nisso é evidenciado no seu enredo satírico. Agora com uns "quilinhos" a mais, o conhecido actor de Gladiator e An Beautiful Mind (por cá gostamos de pensá-lo como o Jeffrey Wingand de The Insider, de Michael Mann) faz dupla com um Ryan Gosling caricatural e sem rédeas, e os resultados chegam a ser … surpreendentemente explosivos.

 

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Shane Black tem um upgrade (e um lifting) do seu anterior, não tão bem sucedido, Kiss Kiss Bang Bang (a sua estreia na direção), onde conseguiu ressuscitar Robert Downey Jr. à comunidade cinéfila e tentou, falhando descaradamente, resgatar Val Kilmer, e para além disso tem no seu currículo o muito amado Lethal Weapon (A Arma Mortífera), um dos pedestais do buddy cop movie. É o regresso das duplas ying/yang, e dos policiais mórbidos, deliciosamente ousados, com gags referenciais aos neo-noir e do cinema de acção oriundo desta "avant-garde" década. Aliás, este é um filme que tem os seus ares de hedonismo incorrecto, e nesse aspecto explora, brincando à sua maneira, com as suas condições de exploitation, assim como enraizar o termo numa intriga bem vintage.

 

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É entretenimento, como parece já ser cliché insinuar, à moda antiga, com um dupla erguida sob uma inesperada química, um argumento simples mas astuto, armadilhado com gags sem escrúpulos e uma ou outra surpresa que tornam este produto num irreverente do género. Ou será repescagem de outros tempos? Assim sendo, esta é o esticado dedo médio de Shane Black à sua constrangida experiência na Marvel Studios [Iron Man 3].

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Shane Black / Int.: Russell Crowe, Ryan Gosling, Kim Basinger, Angourie Rice, Keith David, Beau Knapp, Matt Bomer, Margaret Qualley

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:45
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14.5.16

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Ligações Perigosas!

 

Chan-Wook Park (Oldboy: Velho Amigo) apropria-se do romance literário da britânica Sarah Waters para incutir um conto de erotismo e de técnica luxuriosa onde, novamente, a "scissor sister" volta a ter a sua relevância enquanto ligação terna entre um casal (sim, algo que nos faz suspirar por La Vie d’Adélè).

 

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No centro deste jogo de enganos, traições, ciumes e artimanhas, digno de qualquer thriller hitchcockiano, The Handmaiden é uma espécie de "Origami", machucado, recortado, dobrado, aspirando uma forma que não é a sua, mas que no final o resultado é de pura beleza de criação. Uma beleza presente na direcção segura e estilística de Park, que prolonga os "fracassos" omitidos na sua produção norte-americana, Stoker, ou na sedução captada pelos corpos nus, pelas sugestões sexuais e corporais que as nossas personagens transmitem com toda a satisfação.

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O humor pautado e subliminar enche os frames desta narrativa contada em três vozes, duas perspetivas que complementam-se a um só olhar (terceiro acto), por entre twists e quebras-cabeças emocionais. É certo que podemos acusar de plasticidade Chan-Wook Park frente ao verdadeiro sentido da intriga. Como uma decorada "casa de bonecas", é essa conexão com o olhar do espectador que The Handmaiden adquire a sua atmosférica façanha; é negro e colorido quanto basta. Sedutor e traiçoeiro como ninguém, uma clara alusão à perversão e repreensão sexual na cultura japonesa que cria, ou apenas "educa" fetichistas de imaginações infinitas.

 

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Com belezas ditadas de Kim-Tae-ri e da estrela sul-coreana Min-hee Kim (Right Now, Wrong Then), Chan-Wook Park recria uma das melhores obras de teor erótico dos últimos anos; corajoso ao apresentar em plenas terras da Riviera Francesa um filme que contrai um portento fascínio pela luxúria e pelo obsessivo prazer.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Chan-Wook Park / Int.: Kim-Tae-ri, Jung-woo Ha, Min-hee Kim

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 13:00
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