Semana da Crítica em Cannes, outra mostra paralela do glamoroso Festival de Cinema de Cannes, já divulgou os seus palmarés, entre os quais conta-se com o novo filme de Fabio Grassadonia e Antonio Piazza, Salvo, como o grande vencedor. A história sobre um assassino contratado pela Máfia com uma estranha cumplicidade para com a irmã do homem que acabou por assassinar, venceu o Grande Prémio Nespresso e o Prémio Revelação France 4. Le Démantèlement de Sébastien Pilote é distinguido com o Prémio SACD, Pleasure de Ninja Thyberg com o Prémio Canal +, o argentino Los Dueños de Agustín Toscano & Ezequiel Radusky arrecadam a menção honrosa e por fim o alemão Come and Play de Daria Belova com o Prémio Discovery de melhor curta-metragem em competição.
Neste ano o júri da Semana da Critica em Cannes foi presidido por Miguel Gomes, o realizador do filme português sensação Tabu.
Uma comédia trágica!
Quando Radu Mihaileanu terminou a escrita do guião de Train de Vie, em 1995, recebeu uma proposta de um estúdio de cinema italiano interessado no argumento que de certa forma insere um tom humorístico a uma tema tão forte que é o Holocausto. Porém o estúdio aceitava apenas a produção da fita se esta fosse rodada em italiano e que apresentasse uma estrela do cinema local, no caso foi sugerido o actor Roberto Benigni que havia ganho notoriedade em obras como Johnny Stecchino (1991) e Il Mostro (1994), ambos da sua autoria. Mihaileanu recusou então a proposta e decidiu esperar mais um ano para que fosse possível rodar o filme desejado desde sempre, enquanto em Itália a solução foi La Vita è Bella (1997), que utilizou os mesmos parâmetros cómico-trágicos dos escritos do realizador.
Custando cerca de 23 milhões de francos franceses, o equivalente a 4 milhões de euros, Radu Mihaileanu foi capaz de reproduzir uma antiga aldeia judaica, idêntica aos povoados que o seu pai havia vivido antes da guerra. Um cenário de memórias onde o realizador explorou para recriar esta aventura fora de parâmetros e recorrer a um simples comboio como um amontoado de metáforas e simbolismos da sociedade judaica e das suas relações com a Segunda Guerra Mundial. Este Train de Vie é uma fita que nos deixará hilários ao mesmo tempo enternecidos com uma melancolia nostálgica face ao destino dos seus personagens, que apesar de serem peças fictícias são todos frutos de um conjunto memorial, almas há muito abandonados face ao idealismo de um regime megalómano e acima de tudo desumano.
Train de Vie remete-nos a um incrível êxodos humorístico por parte de um vilarejo judaico algures na Europa Central, que sob aviso de uma iminente chegada das forças nazis decidem encenar um comboio de deportação idêntico aos que alemães possuem para deportar os prisioneiros judeus para os campos de concentração, contudo a locomotiva está destinada a chegar a Israel, a Terra Prometida. Vencedor do Prémio de Critica Internacional do Festival de Cinema de Veneza, Train de Vie é uma epopeia de ironia, metáforas e criticismo, tudo a um jeito de humor burlesco (bem descritivo no cinema de Emir Kusturica, que poderá suscitar comparações) que facilmente recorre e satiriza os estereótipos judaicos, um desses evidentes casos é a sempre presente “forretice” pelo qual os judeus são preconceituosamente famosos.
Tal como indica o título aquele comboio fumegante transporta vida, um símbolo de esperança sob a pele do terror materializado, o realizador franco-romeno convida a embarcar nesta viagem inesgotável de criatividade cómica ao mesmo tempo que em cada gag transporta o espectador ao encontro dos tempos negros que se viveram naquela época, sem nunca apelar ao esquecimento nem ao sentimentalismo barato. Radu Mihaileanu foge ao habitual rótulo do cinema judaico, reconstrói os lugares-comuns dessa evasão, implanta a sua memória nas personagens (os actores são formidáveis em adquirir o tom necessário da fita) e as levas para um rumo de sentido único mas sem saída historial. O final é repentino, inserido num plano fechado que nos remete a um desfecho desgostoso onde o Shoah (Holocausto) encontra-se presente não em termos físicos, mas em metafísicos, uma aura dificilmente esquecida. Segundo o realizador, por vezes a tragédia também é conta por vias do humor.
Filme visualizado na 1ª Mostra do Cinema Judaico (Sessão de Abertura)
Real.: Radu Mihaileanu / Int.: Lionel Abelanski, Rufus, Clément Harari, Michel Muller, Agathe de La Fontaine, Gad Elmaleh

Les Garçons et Guillaumen, à table! de Guillaume Gallienne foi o grande vencedor da Quinzena de Realizadores em Cannes, uma mostra paralela ao mediático Festival de Cannes, a comédia francesa foi premiada com o grande prémio do certame e ainda o Prémio SACD. Os outros vencedores foram The Selfish Giant, de Clio Barnard com a distinção Europa Cinemas e Gambozinos de João Nicolau, o vencedor do prémio de Melhor Curta.
Em âmbito dos Prémios EM Curtas, lançado com a parceria da Novartis, uma iniciativa que incentiva os pequenos autores a elaborar curtas-metragens sob a luta e convivência com a doença da Esclerose Múltipla, um pesadelo que atinge 5.000 portugueses, serão divulgados no dia 27 de Maio nos complexos do Cinema City em Alvalade, pelas 18:30, as três curtas elegidas entre sete trabalhos. Para além de um prémio monetário, os três vencedores poderão ver o seu trabalho em exibição nesses mesmos cinemas, na semana que se assinala o Dia Mundial da Esclerose Múltipla (29 de Maio).
Uma iniciativa corajosa a não perder, a descoberta de novos autores como também novos meios de coabitar com a temível doença.
Para mais informação sobre a iniciativa ver aqui
Maria João Bastos (Mistérios de Lisboa) vai ser a protagonista do novo thriller português, Bairro de Jorge Cardoso, Lourenço Mello, José Manuel Fernandes e Ricardo Inácio, com o argumento de Francisco Moita Flores. O filme nos centra sobre a personagem de Maria João Bastos, Diana, a líder de uma gang especializada em assaltos e trafico. Bairro terá data de estreia para 27 de Julho e contará com Carloto Cotta (Tabu), Paulo Pires (Quarta Divisão), João Lagarto (4 Copas), Afonso Pimentel (Coisa Ruim), Rui Unas (Sorte Nula), Rita Pereira (Morangos com Açúcar - O Filme), Marco Costa (curta Claro Escuro) e Virgílio Castelo (Bela e o Paparazzo).
Don Jon é o filme protagonizado, escrito e realizado por Joseph Gordon-Levitt (The Dark Knight Rises), uma comédia dramática apresentada no passado Festival de Sundance, onde arrecadou alguns elogios. Alusão moderna ao Don Juan, a história centra num homem que tenta tornar-se numa melhor pessoa quando conhece o amor da sua vida. Com Scarlett Johansson (Match Point, The Avengers), Julianne Moore (Hannibal), Brie Larson (21 Jump Street) e Tony Danza (Crash) no elenco. Don Jon ainda não tem data de estreia em Portugal!
Estreia esta semana, dia 23 de Maio, The Reluctant Fundamentalist, a nova obra da realizadora indiana Mira Nair (Amelia, Vanity Fair). Baseado num livro de Mohsin Hamid, O Fundamentalista Relutante (titulo traduzido), nos remete à intensa busca por um refém norte-americano em Lahore, Paquistão. Um jornalista americano, Bobby Lincoln (Liev Schreiber, X-Men Origins: Wolverine), interroga um professor universitário, Changez Khan (Riz Ahmed, Four Lions), acusado de ser um fundamentalista religioso e talvez o cabecilha do acto de sequestro. Durante a conversa entre ambos, varias verdades serão reveladas sobre o conflito que paira as ruas de Lahore, contudo só uma será aceite, uma corrida contra-o-tempo que interlaça com ideais e valores. Kiefer Sutherland (da série 24), Kate Hudson (Almost Famous) e Om Puri (Gandhi) completam o elenco.
A obra por excelência de Charles Dickens, The Great Expectations, voltará a ser readaptada para o grande ecrã, desta sob o cunho de Mike Newell (Four Weddings and a Funeral, Harry Potter and the Goblet of Fire). Esta produção britânica de luxo irá marcar presença nos nossos cinemas já na próxima Quinta-Feira, dia 23 de Maio, e contará com um elenco de luxo que vai desde Jeremy Irvine (War Horse), Ralph Fiennes (Harry Potter and the Deathly Hallows), Helena Bonham Carter (Dark Shadows, Charlie and the Chocolate Factory), Robbie Coltrane (Harry Potter and the Sorcerer’s Stone), Jason Flemying (Clash of the Titans), Holliday Grainger (Jane Eyre), Sally Hawkins (Happy-Go-Lucky) e Ben Lloyd-Hughes (Tormented).
Um acto de pura devoção!
Segundo o próprio, numa manhã chuvosa de Março durante a rodagem de O Pão (1959), Manoel de Oliveira procurava cenários para a sua obra quando deparou com um ritual estranho mas envolventemente religioso. O realizador ferverosamente crente sentiu uma aura divinal na representação de Paixão de Cristo, interpretada pela população da aldeia transmontana da Curalha. A partir daquele vislumbre, de Oliveira decide registrar a sua descoberta para a posteridade, num filme que cruza documentário com ficção (apelidado de docuficção, um área experiente do cinema português) que se tornou num dos marcos da sua carreira, o modelo que definiria o homem que seria conhecido e aclamado como o “mestre do cinema português”.
As citações, proferidas do Auto da Paixão, derivado dos textos escrito por Francisco Vaz de Guimarães do seculo XVI, transmitiam uma emocionante jornada de um povo crente que dedicava com fé, amor e devoção aquela cerimónia pascoal, à figura divina crucificada na representação e acima de tudo à cooperação de um povoado para gerar este simbólico gesto de comprovação religiosa. Manoel de Oliveira sentia-se então comprometido aquele festim de poemas e cantorias, ao rigor popular das personagens, à encarnação que cada uma delas representava para aqueles habitantes, mais do que o Mundo em desenvolvimento e em pleno progresso à sua volta. O realizador filma assim um espectáculo rural, raro e artesanalmente belo onde se funde com um das suas duradouras paixões, o teatro, e é com essa teatralidade que Manoel de Oliveira iria estampar como sua imagem de marca perante uma filmografia extensa e sempre no activo.
Podemos esperar uma representação dedicada por parte do autor a esta manifestação religiosa, um acto devoto rural que esboça o próprio cinema de Oliveira. Contudo o realizador não se contém com as suas fervorosas crenças e ao chegar ao seu desfecho, “atira-se de cabeça” aos problemas sociais da época, à desumanidade vivida, ao cenário bélico que deixa para trás uma fantasmagórica aura de morte e caos, imagens de arquivo que se reúnem ao simbolismo desta Paixão de Cristo, uma forçada ligação entre um acto religioso aos males mundiais. Mesmo sabendo do foro teológico, do símbolo de esperança e paz que o conto transcrito pela representação de Curalha emana, capaz de emocionar até mesmo o mais descrente, a verdade é que a imperatividade de fé transposta por Manoel de Oliveira deixa tudo a perder (aliás o realizador tem essa tendência de criar finais exagerados).
Contudo, Acto de Primavera se fomenta como um dos proeminentes obras do autor, um importante retrato de criatividade e prosperidade da docuficção. Sejam religiosos ou não, este é um filme que merece sempre a visualização, rituais perdidos e fé na representação e ilustração dos ícones de esperança e amor em plena Pascoa! A força popular no seu melhor e a padronização do cinema de Oliveira!
Filme visualizado no PANORAMA – 7ª Mostra do Documentário Português
Real.: Manoel de Oliveira / Int.: Nicolau Nunes Da Silva, Ermelinda Pires, Maria Madalena
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Cristóvão Colombo: O Enigma (2007)
Singularidades de uma Rapariga Loura (2009)
Estranho Caso de Angélica (2010)
Real.: Kim Jee-Woon / Int.: Arnold Schwarzenegger, Forest Whitaker, Johnny Knoxville
Filme – O regresso de Arnold Schwarzenegger como herói a solo sob a alçada do primeiro trabalho do coreano cineasta, Kim Jee-Woon, que já nos havia oferecido delirantes obras como The Good, The Bad and the The Weird e I Saw the Devil. Os dois “ingredientes” explosivos resultam nesta espécie variação moderna de High Noon, um velho xerife pronto a defender a sua pequena cidade dos malfeitores, um filme de acção com genialidade ocasional mas pobre em termos de personagens e situações. A verdade é que Schwarzenegger não desilude no seu regresso á acção, não envergonha mesmo como factor da idade e a sombra do físico de outrora, mas Kim Jee-Woon sim, esperava-se mais identidade por parte do cineasta do que simplesmente um entretenimento passageiro e pouco dinâmico.
AUDIO
Inglês Dolby Digital 5.1
LEGENDAS
Português
EXTRAS
Entrevistas
Em Filmagens
Trailers
Tv Spot
Distribuidora – PRIS Audiovisuais, SA
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Um atraso dramático!
Um atraso descomunal de três anos a chegar ao nosso país, um título traduzido ridículo que transmite uma ideia completamente errada da temática do filme (O Outro Lado do Coração), Rabbit Hole, o ultimo filme de John Cameron Mitchell (Shortbus), um drama seco mas competente, está condenado a passar despercebido em Portugal. Datado do ano 2010, Rabbit Hole integrou nos seleccionados aos Óscares de 2011 na categoria de Melhor Actriz Principal em 2011 graças a um desempenho sofrido por parte de Nicole Kidman. Todavia mesmo tendo sido o filme com menor receita domestica entre os envolvidos nos prémios da Academia daquele ano (com um orçamento de cinco milhões de dólares, apenas rendeu dois), ninguém nega que com o seu devido tempo a obra poderia funcionar dentro do nosso panorama cinematográfico. A começar pela actriz, Kidman não é uma desconhecida e sou crente em afirmar que exista por aí legião de fãs que veneram esta estrela de Hollywood e por fim a marca registada dos Óscares, prémio cinematográfico mais conceituado e respeitado serviria como um atractivo para o grande público consumido pela publicidade que a estatueta dourada emana. Enfim, com os três anos de atraso, um período difícil para o cinema que Portugal atravessa, e uma estimativa de 7 a 8 estreias por semana, Rabbit Hole perdera o seu impacto que poderia ter obtido há tempos atrás.
Contudo não devemos desfazer as qualidades desta mudança de registo de John Cameron Mitchell, que invoca memórias do seu passado (a perda do seu irmão) para adaptar a homónima peça de David Lindsay-Abaire. Assim sendo temos a nosso dispor uma obra igualmente padecida em termos emotivos, que não acarreta uma enfase dramática digna de melodrama o que torna Rabbit Hole, pesado, deprimente, mas nunca exagerado nem sob influências telenovelescas. A realização por parte de Cameron Mitchell é segura e experiente na recriação desta história de luto de um casal perdeu tragicamente o seu único filho. O autor consegue em todos os campos conceber uma partitura para os seus actores expressarem interpretativamente. Ou seja, temos a nosso dispor uma Nicole Kidman friamente forte, paranóica e de uma beleza emoldurada que nos remete um dos seus melhores empenhos dos últimos anos e um Aaron Eckhart, subtil mas por vezes explosivamente emotivo, dois desempenhos que lideram um leque de actores profissionais e todos eles demostrados as suas facetas frágeis, invocando o melhor da “escola de actores norte-americana”.
Rabbit Hole é contudo um drama forte, mas prejudicado pelo desleixo da distribuidora. A fita de John Cameron Mitchell chega demasiado tarde aos nossos cinemas, perdendo o impacto que poderia culminar. Bom, mas não surpreendente.
“And so this is just the sad version of us...”
Real.: John Cameron Mitchell / Int.: Nicole Kidman, Aaron Eckhart, Dianne Wiest, Sandra Oh
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