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21.3.17

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Paul Vecchiali, realizador e produtor francês conhecido pela sua irreverência, e Jem Cohen, prolifero cineasta norte-americano, serão homenageados na próxima edição do IndieLisboa na categoria de Heróis Independentes.

O primeiro contará com uma longa retrospectiva a ser projetada na Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema. Tal será composta por algumas das suas mais importantes obras, incluindo o seu mais recente trabalho, Le Cancre, que fora exibido no Festival de Cannes em 2015, numa Sessão Especial. Conhecido pelo carácter provocador e a sua natureza polivalente, para além de realizador e produtor (destaca-se a sua colaboração com os primeiros anos de Jean Eustache), Vecchiali contribui com alguns, mas importantes artigos, para a Cahiers du Cinema.

Em relação a Jem Cohen, o Indielisboa sempre manteve uma relação intima e atenta para com a obra deste artista que conta com mais de 70 trabalhos, desde longas a curtas, instalações e fotografias, todos eles marcados por uma veia indie, que o festival tem vindo apoiar desde os primórdios da sua existência.

Indielisboa chegará a partir do dia 3 de Maio, prolongando-se até 14 do mesmo mês.
 
 
 

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publicado por Hugo Gomes às 16:32
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20.3.17

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 Go, go, Power Rangers!

 

Qualquer indicio de algo vindo do universo de Power Rangers é por si só difícil de ser levado a sério, quanto mais uma longa-metragem cuja palavra de ordem é … a seriedade. A esta altura do campeonato, a existência de uma réstia de faísca dramática de um Transformers é mera miragem. É então que, para contrariar a "tradição", entra este novo franchise com tudo aquilo que sempre questionamos existir no cinema blockbuster meramente adolescente: enredos teens com robôs alienígenas - uma fórmula aproveitada até à exaustão na cultura popular nipónica.

 

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Aliás, o Japão foi o país de origem deste reciclado programa chamado Power Rangers. Pois, só que não altura chamavam-se Super Sentai e eram vistos como uma forma artesanal de "colar" jovens ao ecrã, e bombardeá-los com um fuinha "monster of the week". Quanto aos americanos, os Power Rangers, a popularidade atingiu o seu pico mas hoje eles são vistos como objectos kitsch, como uma recordação da infância. Mas será que para isso merecíamos algo como este filme, negro, pretensioso e de ideias do formato industrial? A resposta é mais que previsível, porém, se existe, há que justificar a sua existência. Certo?

 

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Pois bem, a primeira parte é algo - não sei se devo mencionar tal palavra, mas cá vai - promissora, com um início cuidadoso em colocar as personagens nos seus devidos lugares. O processo encontrado para tal foi ao recitar John Hughes e o seu Breakfast Club. E a ação que encontra simpatia pela câmara de mão e pela chamada crash camera, auferindo um sentimento de cinema fora de estúdio. Até aqui, o filme engana bem os seus propósitos mais primitivos. Mas tudo acaba cedo. Os nossos adolescentes danados por estereótipos e clichés cedem à preciosidade dos poderes alienígenas de Zordon, um talkhead (na sua forma mais literal) encarnado por Bryan Cranston que promete maravilhas em troca de responsabilidades. Lá vamos nós com o "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades".

 

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Há que proteger o Mundo da iminente destruição e para isso, para os nossos cinco jovens o objetivo é treinar duro e duro … por 11 dias, obviamente, condicionados a uma montagem musical para poupar o tempo que sobra. Elizabeth Banks entra em cena e rouba o espetáculo com a sua vil caricatura de Rita Repulsa. Sim, esta é a grande vilã de Power Rangers, que por si já era uma paródia às figuras antagónicas, mas que encontra nesta nova versão um equilíbrio entre o sombrio e o show off.

 

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Mas se Banks vale o preço do bilhete, já o terceiro ato, uma desculpa para inserir-se no desonesto "fan service", onde cada plano soa como um "tiro ao lado" em termos circenses. É tudo igualmente vistoso, mas na sua igualdade tudo se resume de A para B em questões de argumento, com um macguffin impaciente servindo de nota para uma saga em pré-construção. Como os produtores são atenciosos em olhar para o horizonte, perdemo-nos então entre climaxes anoréticos, personagens sofríveis, descartáveis e easters eggs para dar brilho aos olhos dos fãs (sim, temos cameos de alguns membros da velha equipa).

 

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But who cares! Porquê encararmos como houvesse muito mais num filme baseado em Power Rangers? Dean Israelite, que parece ter impressionado os produtores com o Project: Almanach, teve essa iniciativa. Não o vamos julgar por isso, mas tal como os dez mandamentos, existem leis incontornáveis de como fazer um espetáculo à lá Hollywood para render globalmente (e não estamos a falar só do filme, existe ainda o merchandise). No final de contas, Power Rangers não é diferente de muitos filme que também respeitam as regras dos blockbusters.

 

"It's morphin time"

 

Real.: Dean Israelite / Int.: Dacre Montgomery, Naomi Scott, RJ Cyler, Ludy Lin, Becky G., Elizabeth Banks, Bill Hader, Bryan Cranstone

 

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4/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:50
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18.3.17

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Suspiria é hoje tido como uma das obras-primas do mestre do cinema de terror italiano Dario Argento, e uma das suas principais particularidades é a paleta de cores utilizada, auferindo ao filme um tom plástico e berrante. Contudo, a nova versão irá afastar-se desse mesmo tom visual, e quem o garante é o realizador, o também italiano Luca Guadagnino (I am Love).

 

Segundo Guadagnino, o remake de Suspiria (cuja a rodagem encontra-se finalizada desde o ano passado) tentou afastar-se do célebre filme de Argento, constituindo-se como uma visão própria. O realizador adiantou que o seu filme terá como temáticas "a culpa e a maternidade. Não possuirá as cores primárias na sua paleta, tal como o original" e "será frio, maléfico e muito negro".

 

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Recordamos ainda que Chloe Moretz Grace será a protagonista, e Dakota Johnson, Mia Goth, Tilda Swinton e Jessica Harper (protagonista do original) completarão o elenco. Suspiria remete-nos a uma conceituada escola de dança que recebe uma jovem bailarina americana. Durante a sua estadia, fenómenos bizarros e assassinatos macabros ocorrem por dentro e por fora das paredes da Academia.

 

O original de 1977 foi o primeiro filme de uma trilogia que Dario Argento apelidou das "Três Mães", que fora posteriormente completado com Inferno (1980) e Mãe das Lágrimas: A Terceira Mãe (2007). A nova versão estreará ainda este ano. De momento não existe data de estreia.

 

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publicado por Hugo Gomes às 01:07
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16.3.17

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Com cinco cidades em simultâneo, a Festa do Cinema Italiano chegará com esta 10ª edição na sua mais pujante força. para além de Lisboa, junta-se as cidades de Almada, Coimbra, Porto e Setúbal na partilha desta programação, embrulhada em promessas de trazer o melhor do cinema italiano recente, assim como invocar às mais perpetuas memórias cinematográficas.

 

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O filme de Marco Bellocchio, Sweet Dreams, foi o escolhido para abrir esta festa nostra no dia 5 de Abril, uma mostra que se prolongará até dia 13, tendo como desfecho o In Guerra Per Amore, de Pierofrancesco Diliberto. Entre as grandes novidades da secção Panorama conta-se os dois novos trabalhos de Roberto Andó (Le Confessioni - Políticos Não se Confessam) e Paolo Genovese (Perfetti Sconosciuti - Amigos, Amigos, Telemóveis à Parte).

 

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Serão seis os filmes presentes na habitual secção Competitiva, uma mostra repleta de novos nomes do cinema italiano e alguns ascendentes neste ramo. Já na Altre Visioni, dedicado ao cinema mais experimental e desafiante, teremos à nossa mercê quatro longas-metragens que melhor definem a maleabilidade da linguagem cinematográfica. A juntar ao já acostumado esquema de programação, as secções Il Corto (curtas-metragens), Piccolini (cinema de animação, este ano com o apoio da Monstra), e como não poderia deixar de ser, Amarcord, dedicado aos grandes clássicos de Itália.

 

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Neste último espaço, as novidades são imensas. O ciclo Dino Risi, um dos génios da comédia, o qual será composto por 10 longas-metragens, incluindo o unanimemente aclamado e famoso Il Sorpasso - A Ultrapassagem. Ainda, a reposição numa cópia 4k da obra-prima de Dario Argento, Suspiria, que à imagem do 8 1/2 , de Fellini, do ano passado, encontrará lugar nas salas UCI Corte-Inglês durante todo o festival. Por fim, outro clássico popular do cinema italiano, Trinitá, o Cowboy Insolente, com a dupla Bud Spencer (falecido ano passado) e Terence Hill a protagonizar esta fusão entre western spaghetti e comédia slapstick.

 

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Mas a Festa do Cinema Italiano não é apenas uma mostra de filmes, o festival será palco de um encontro entre produtores portugueses e italianos  com vias de lançar novas parcerias entre os dois países. A iniciativa, organizada pela associação Il Sorpasso, tem a colaboração do ICA, o MiBACT - Direzione Generale Cinema e a ANICA.

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:22
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O realizador de Som ao Redor e Aquarius, Kleber Mendoça Filho, vai presidir o júri da próxima Semana da Crítica de Cannes. Contando agora com a sua 56ª edição, a Semana da Crítica contará ainda com a produtora e directora artística do Festival de Cartagena, Diana Bustamante Escobar, o chefe de reportagem do site Indiewire, Eric Kohn, directora do Cinema Metropolis, o primeiro cinema arthouse do Líbano, Hania Mroué e o actor Niels Schneider como jurados.

 

Recordamos que a Semana da Crítica, secção paralela do Festival de Cannes, é dedicado à promoção de novos talentos do cinema, exibido uma mostra composta por primeiras e segundas obras.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:36
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16.3.17

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publicado por Hugo Gomes às 15:38
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14.3.17

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No ano passado, num divulgado trailer de Finding Dory, era possível ver duas mulheres com uma criança, imagem essa, que instantaneamente foi deduzida como um casal de lésbicas. A homossexualidade iria por fim entrar no universo Pixar, um prenuncio que suscitou euforia para a comunidade LGBTQ e profecias de destruição moral por parte do leque mais conservador. Até à sua estreia, Finding Dory usufrui deste tipo de publicidade, positiva ou negativa, consoante a perspectiva e ideologia de cada um. O resultado foi, simplesmente, fogo de artificio, as duas personagens nada de relacionado davam a entender. Para algumas publicações e órgãos de comunicação, a oportunidade foi vista como um total desperdício.

 

Um ano depois, não propriamente no seio Pixar, mas nos estúdios Disney, o anúncio de por fim, uma personagem gay neste Universo, levantou, igualmente, muitos festejos como também reacções espontaneamente negativas em relação à nova versão de The Beauty and the Beast (A Bela e o Monstro). Desde a boicotes, censuras em cinemas de Alabama (sim, territórios norte-americanos!), alterações da classificação etária em território russo, adiamentos na estreia em alguns países como a Malásia, de forma a conseguir cortar a respectiva sequência, ou seja, o Mundo ficou de pantanas ao ter conhecimento numa persistência homossexual nas produções dirigidas a famílias.

 

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Será isto uma ameaça real aos velhos valores morais, ou tudo se deve ao facto de vivermos num Mundo cada vez mais governado pelo populismo e por mentalidades arcaicas? Que perigo encontraremos numa personagem destas num filme orquestrado para uma vasta gama de audiências? Caros leitores, antes de mais, não existe qualquer perigo nisto. Mais uma vez, a oportunidade foi desaproveitada, a dita cena "homossexual" é vista por breves segundos e utilizado como um veículo cómico (quantas comédias é que utilizam a homossexualidade como gag e são devidamente aceites em sociedade conservadoras?), provavelmente de forma a não prejudicar o frame-to-frame que o filme ousa em assumir-se. O veredicto é que até nesta vertente de ser avant-garde do cinema familiar, A Bela e o Monstro converte-se igualmente conservador e reservado nesta matéria.

 

Sendo assim, a Disney provou ser capaz para tocar no tema, e sem precisar de grandes anúncios, veja-se por exemplo na chuva de beijos num segmento da série infanto-juvenil Star Vs the Forces of Evil (ver abaixo), que sim, passou na televisão e não usufrui de igual mediatismo.  

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:08
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Há dois anos atrás, na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, um filme croata emocionou o público com uma abordagem criativa e romântica do conflito dos Balcãs. É um enredo que prolonga-se por mais de trinta anos, jogando-se com encarnações e momentos dignamente shakespearianos. Esse filme foi Zvizdan, por cá sob o título de Sol de Chumbo, que acabaria por vencer o prémio de Júri de tal secção.

 

O Cinematograficamente Falando … falou na altura com Dalibor Matanic, o realizador assumidamente optimista que parece figurar-se numa nova e ascendente geração que promete fazer um cinema activista, mas sobretudo de carácter urgente e moralista.

 

Ao ver o seu filme temos a sensação que o Dalibor é um homem romântico.

 

Sim, mas penso que se deveria antes dizer que sou um optimista. Neste assunto é o meu ponto de vista, a minha posição e o filme sou eu, é tudo aquilo que vejo à minha volta. A minha família sempre me disse: "que as pessoas metem em primeiro lugar as suas energias mais negativas, como o ódio, ao invés de outros sentimentos como o amor e o afecto".

 

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Como nasceu a ideia para este filme?

 

Curiosamente, a ideia veio da minha avó. Cresci com ela e ela foi para mim um poço de amor incondicional, mas à medida que ia ficando mais velha começou a repetir o mesmo conselho "por favor arranja uma rapariga que não seja sérvia". Isto é absurdo, alguém que te dá todo o amor na tua vida e ao mesmo tempo é capaz de interditá-lo. Isso fez-me pensar no porquê que estas boas pessoas estão infectadas com este elemento de ódio, ou por vezes, presas. Por isso, este filme funciona como um "gatilho" de resposta a esses sentimentos, e demonstrar como é possível apostar no oposto.

 

Digamos que este é um filme activista?

 

Sim, mas no filme tentei ser gentil na temática, mesmo assim poderá suscitar algumas reacções negativas para algumas pessoas com ideias fundamentadas. Para além da gentileza, tentei transparecer uma certa disposição, como um espelho, que reflecte-as e que as confronta com o seu próprio reflexo.

 

Mas porquê este formato: 3 histórias, 3 décadas diferentes e 2 actores?

 

Queria transmitir às audiências uma precaução de que o destino é sempre o mesmo, uma sensação de ciclo repetitivo e foi com esse intuito que utilizei os mesmos actores para personagens diferentes. Porém, com esse processo tentei esclarecer um ciclo onde as cargas negativas vão-se esmorecendo conforme o destino.

 

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Como preparou os seus actores para um ciclo repetitivo, e ao mesmo tempo divergente, de papeis?

 

Eu não sou do tipo que gosta de explicar tudo, a maneira como se deve agir, o sorriso, o olhar. Nada disso. O que pretendia aqui era pequenos ou até pormenores invisíveis entre personagens. Trabalhamos muito e por muito tempo para poder encontra estes pequenos itens que nos levam a diferenciar personagens, não pretendia diferenças discrepantes entre elas, queria transmitir a sensação que apesar de diferentes e de viverem em décadas distantes, estas eram unidas, como algo hereditário, a um só ser, aquela energia continua. As minhas personagens possuem uma ideia que habita dentro delas, não exibindo-as como parte da sua estética. Algo comparado ao subconsciente.

 

Estes eram os atores com quem inicialmente pensou em trabalhar? Como os escolheu?

 

Tenho orgulho de ter no meu elenco Tihana, o qual considero ser uma das melhores actrizes croata da sua geração. Já nos conhecíamos há anos e por isso a adaptação foi tranquila. Claro que tive que executar um casting para as personagens mais velhas e sobretudo para o protagonista masculino. Foi então que encontrei Goran Markovic, que foi perfeito para o papel.

 

Muita da imprensa afirma que o seu filme poderá se tornar no mais influente e conhecido filme croata. O que sente acerca destas afirmações?

 

Sou pacifico em relação a isso [risos], quando estava a filmar o filme, depositei nele alguns dos meus sentimentos e em Cannes apercebi-me que essa energia está de certa forma estampada nele. Mas não é só as referências croatas, julgo que todo o leste precisa de filmes como estes. Um cinema que aborda estes mesmos medos, fantasmas e temas. Actualmente, surge entre nós uma geração de jovens com um tamanho ódio instalado no coração, eles odeiam tudo, por isso, é importante que exista este tipo de filmes e que esta mesma geração os veja e, acima de tudo, sejam confrontados por estes.

 

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Em relação ao título. Porquê High Sun (título internacional)?

 

"High Sun" (Sol ascendente) é quando o Sol está no pico, e ele ilumina-nos deixando a nossa sombra saliente no chão, como tal existe uma espécie de reflexão, ou por outras palavras, um confronto entre o iluminado e o fruto dessa iluminação. É como olharmos para nós próprios, mas sob a influência de algo acima da nossa compreensão.

 

Novos projectos?

 

Este Zvizdan será o início de uma trilogia, o qual apelido de a trilogia do Sol. Com esta saga tentarei esclarecer os aspectos sentimentalmente positivos como negativos, um embate entre a Humanidade e as energias negativas que habitam entre nós à séculos. O meu próximo capítulo terá como título "Down Sun", como uma Aurora, o qual tentarei estabelecer sentimentos próximos do luto.   

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:55
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Nada de belo, nem nada de monstruoso! Apenas a "cópia"!

 

É um conto de cariz moralista, este, adaptado pela escritora Jeanne-Marie Leprince de Beaumont de uma versão negra e sexualizada da conhecida Madame Villeneuve. Um conto sobre aparências e riquezas interiores que ultrapassou gerações e que encontrou no cinema um certo e confortável lar. A mais emblemáticas das transições cinematográficas ocorreu em 1946, num poético filme de Jean Cocteau, na linha do existencialismo animalesco de um dos seus protagonistas em constante confrontação com o afecto, o amor no seu estado mais platónico.

 

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Depois da feliz experiência, uma metragem gótica que consolidava o melhor de dois mundos (o cinema sonoro e o mudo), aconteceram enésimas adaptações, grande parte delas fora do estatuto do memorável. Em 1991, a Disney, determinada a sair das ruas de amargura que frequentava, lança-se numa animação tecnicamente gloriosa, assim como musicalmente cativante para um vasto leque de audiências. Hoje tido como uma das melhores produções da casa do Rato Mickey, é então que aparece entre nós … isto.

 

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Temos efeitos visuais, cenários grandiosamente artificiais, um elenco que está ali para cumprir o cheque (só Luke Evans parece funcionar num filme com grandes erros de casting) e, claro, zero em criatividade. Este novo A Bela e o Monstro chega quase a ser um frame-to-frame da amada animação, um declarado "remake" espalhafatoso que demonstra o quanto o estúdio está empenhado em manter o seu rigor mortis de conformismos mercantis.

 

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Pelo vistos, parece ser tendência para aqueles lados. Já com Cinderella e The Jungle Book se assistiu a essa avarenta apropriação do legado e, como tal, o resultado parece somente o lisonjear um património, em vez de construir novas narrativas para gerações futuras. Não seria mais fácil relançar o clássico do que gastar "rios de dinheiro" numa obra copista? Nostalgia ou não, a verdade é que tudo é fruto de uma indústria que se contenta com o mesmo espectáculo de sempre, onde os atributos técnicos do costume prevalecem frente à arte de contar uma História. Mas as pessoas vão adorar? Claro que vão, faz tudo parte de uma experiência de recordações, mas o que vemos é um filme de 1991, não uma sofisticação de 2017. Duas horas divididas entre o completamente vazio e a palha desnecessária.

 

Real.: Bill Condon / Int.: Emma Watson, Dan Stevens, Luke Evans, Josh Gad, Kevin Kline, Ewan McGregor, Ian McKellen, Emma Thompson, Stanley Tucci, Gugu Mbatha-Raw

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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13.3.17
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Cinema português … o eterno dilema da dinamização!

 

Diogo Morgado anunciou que esta sua experiência na realização teria como intuito trazer algum dinamismo ao panorama cinematográfico … por outras palavras, lá vamos nós à velha cantiga do cinema comercial português versus o autoral do costume.

 

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Mas será que esta proposta de comédia, um registo tão malfadado na nossa "indústria" actual, consegue vencer e transpor as barreiras da limitação televisiva? Claro que não, este filme que tem como signo a "má sorte" (ou Malapata) persiste numa ideia, e essa é dissipada pelas tendências de mercado que nós próprios abraçamos. Um bilhete premiado, dois amigos improváveis e dois dias cheios mergulhados numa maré de azar poderiam ser motivo para invocar as peças de uma série de infortúnios que funcionaram tão bem em comédias como After Hours, de Scorsese, e nas aventuras surreais de Harold & Kumar.

 

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Mas a ideia, essa, é o de somente uma sugestão, o que interessa é polvilhar a narrativa com camadas televisivas que teimam em não deixar ou preencher as elipses e transições com longuíssimas imagens de drones por um Faro em modo turístico. Depois, os cameos, desde o mágico Luís de Matos até à cantora Ana Malhoa, são os de uma cadência de "estrelas" que tende em servir mais como atractivos para o cartaz do que contribuir para a credibilidade do enredo. No caso do primeiro, a sua honestidade leva-nos à real percepção deste projecto: tudo não passa de um verdadeiro espectáculo de ilusionismo.

 

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Assim chegamos ao humor básico tão característico dos alter-egos dos seus protagonistas (Marco Horácio e Rui Unas), à narrativa que falha sem a concepção de um alvo requerido ou de uma linguagem cinematográfica e, como não poderia deixar de ser, a direcção sem brilho e quase anónima de Diogo Morgado, mas ao menos a sua estreia demonstra mais talento que um Leonel Vieira.

 

Real.: Diogo Morgado / Int.: Marco Horácio, Diogo Morgado, Rui Unas, Luciana Abreu, Pedro Marques, Luís de Matos, Ana Malhoa

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:12
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O cineasta tailandês, Apichatpong Weerasethakul (Cemetery of Splendor), irá estar na Colómbia por mais de dois meses, em pesquisa para o seu novo filme. O vencedor da Palma de Ouro por Uncle Boonmee Who Can Recall His Pasts Lives pretende filmar o seu próximo projecto no país sul-americano, passando pelas regiões de Bogotá, Medellín, Cali e Choco, destinos que concretização, de certa forma, a sua obsessão pela América Latina.


Em declaração à The Hollywood Reporter, o realizador afirmou que deseja conhecer toda a história de violência ocorrida no país, e com base disso, reflectir sobre ele. Weerasethakul ainda comentou sob o forte clima politica e a censura da Tailândia, que permanece desde o Golpe Militar de 2014. Frustado, revelou que de momento é impossível trabalhar no país como artista, sendo que o regime olha para este meio como propaganda. "Por exemplo, dois artistas de teatro estiveram na prisão durante dois anos porque fizeram algo que o governo considerou um insulto à monarquia - é toda sobre a interpretação [da arte]. É realmente como o 1984. "

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:48
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11.3.17

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Philippe Garrel, o feminista?

 

Será esta a maldição de Philippe Garrel reviver nestes últimos tempos as mesmas intrigas adulteradas? L’Ombre de Femmes tem sido visto como a tendência feminista no seu discurso das traições, da natureza frágil das relações amorosas e da condição imposta pela sociedade ocidentalizada em matéria da monogamia "forçada".

 

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Sim, para quem assistiu à trilogia dos "Amantes", é melhor apertar o "cinto", porque a mesma jornada é induzida em mais uma tonalidade de tons cinzentos. Em comparação com La Jelouise, esta À Sombra das Mulheres é um upgrade dessas mesmas "sombras", fora Louis Garrel carnal, e entra dois desconhecidos neste mundo "garreliano" para servir de vitimas em mais um fraudulento "faz-de-conta" amoroso. Garrel [pai] aposta numa visão que coloca a mulher acima da fragilidade luxuriosa do homem, entendendo que com essa inclinação sentimental, esteja a conduzir-se num proclamado retrato feminista.

 

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Mas não. Existe sim, um lisonjear ao sexo oposto, abdicando do seu "eu" intimamente masculino para forçosamente inserir-se numa "troca-de-papeis", de forma a quebrar o circulo que o próprio havia criado em loop. Mas a Mulher, valorizada ao estatuto de "Vénus" amorosa, é uma somente doce vingança para a carência impelida pelo seu marido. Voltamos ao palco das milésimas Sabrinas, Rebeccas e de outros romances de cordel - a mulher é ultra-sensível, colocando primeiramente o seu sentimento mais inocente frente ao desejo sexualizado, ao contrário do homem, novamente posicionado como o "sacana" de serviço rendido aos instintos primitivos (será a poligamia um acto meramente primitivo?).

 

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Aqui, o que está em causa não são hierarquias, mas sim igualdades, e neste momento queremos mulher a persistir no seu desejo, na fantasia, não no platónico amoroso que parece aqui instalar-se. Sem com isso negar a possibilidade "civilizada" de uma relação afectuosa ao mais alto nível. Até porque temos dois seres que se completam, que se amam, mesmo expostos a "pecados carnais" de diferentes objectividades. O final, essa quebra de uma maldição "teimosa", é inteiramente enxertada como uma vinha de cultivo, não se sente, apenas "engole".

 

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Todavia, há que valorizar o esforço de Garrel em fugir dos grandes pecados de La Jelouise, começando por diálogos cuidados e trabalhados, "migalhas de pão" em direcção ao adultério, os actores e o seu orgulho de "vestir" tais personagens e a realização menos apressada por parte do nosso Philipe. Por outras palavras, talvez seja a melhor obra do realizador nos últimos tempos, mas longe do feminismo pelo qual é vendido.

 

Real.: Philip Garrel / Int.: Clotilde Courau, Stanislas Merhar, Lena Paugam, Vimala Pons, Louis Garrel

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:31
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Foto: REX/SHUTTERSTOCK

 

É sabido que o mais recente filme de Terrence Malick, Song to Song, foi a abertura escolhida para a mais recente edição do South by Southwest (SXSW), um dos maiores eventos do mundo a unir cinema, música e tecnologia, a decorrer em Austin, Texas. A nona longa-metragem de um dos mais enigmáticos realizadores da actualidade, une a natureza musical da cidade com as relações amorosas dignamente "malickianas", temas que tão bem coincidem com os propósitos do festival.

 

Contudo, a grande notícia do evento, foi mesmo a aparição de Malick perante o grande público. O realizador participou numa mesa redonda ao lado do seu protagonista Michael Fassbender, tendo como moderador Richard Linklater, onde falou sobre o seu filme. "Não se pode viver em Austin e escapar à música", declarou o realizador em relação à produção desta obra na cidade texana. Conhecido como um cineasta reservado, que se recusa a dar "cara" à imprensa e a promover as suas próprias obras, isto durante décadas. Como tal, a presença de Terrence Malick foi recebida entre um sentimento de euforia e de insólito.

 

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Lembro-me sempre de sentir timidez, porque é difícil projectar-mos  para o presente” referiu, quando confrontado com a contemporaneidade de Song to Song. “Eu penso que ao fazer um filme contemporâneo, reflectimos sobre as imagens que não foram utilizadas em publicidade … e a conclusão que chegamos é que existem muitas imagens de hoje como havia no passado” Na conversa a três, Linklater mencionou os últimos três filmes de ficção de MalickTo the Wonder, Knight of Cups e agora Song to Song, para depois questionar esse curto espaço de tempo na concretização das suas obras, um factor que o realizador parecia não usufruir do passado. Malick afirmou que presentemente estaria a preparar uma nova abordagem na sua cinematografia, e que a vinda do digital tornou a sua tarefa mais fácil, eficaz e oportuna para filmar como bem lhe apetecer. “Hoje, com a mais moderna tecnologia, podemos filmar bastante em 40 dias.

 

Malick ainda admitiu que o primeiro "cut" de Song to Song tinha cerca de oito horas de duração: “Levou-me bastante tempo a cortar e a ter uma duração maleável … tínhamos bastantes filmagens para contar a história em diversas perspectivas”. A conversa continuou até chegar ao modus operandis de Malick, que fora sempre acusado de explorar e experimentar durante o ato de rodagem: "tenho problemas em trabalhar com coisas demasiado preconcebias, como storyboards."

 

O SXSW vai decorrer até ao dia 19 de MarçoSong to Song tem estreia prevista para Abril no nosso país. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:04
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9.3.17

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O nascimento de um Império!

 

Existirá filme mais glorificador do capitalismo que uma obra sobre as raízes da cadeia de restaurantes McDonalds, e a sua difusão neste mundo fora? Esta ode a um dos temas mais polarizados de qualquer cardápio oral, funciona, como já era de esperar, na mesma e tangível formatização do conceito cinebiográfico. Não no sentido individual. O que está em causa não é a história vivente feito RVCC de um sujeito, mas o paralelismo entre Ray Krok e o seu achado "gastronómico".

 

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Michael Keaton volta às suas vestes de pretensioso egocêntrico (já tínhamos saudades de The Birdman), um vendedor que encontra num restaurante local a sua hipótese de brilhar numa carreira falhada, e lançar-se assim à tão esperada definição de "Franchiseee". Esse restaurante era McDonalds, sob a gerência dos irmãos McDonalds que inovaram o conceito de "comida-rápida", como a certa altura sublinham a grande prioridade deste invento - hambúrgueres em 30 segundos, ao invés de 30 minutos. Porém, é aqui que o capitalismo demonstra a sua vil faceta, respirando num eterno jogo de "monopólio".

 

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The Founder nunca cai no erro de glorificar a manifestação pelo qual McDonalds serve actualmente de símbolo, mesmo que a amoralidade da obra de John Lee Hancock tenha mais percalços do que propósitos, e o receio de denegrir a fundação mais conhecida dos EUA ("a nova igreja da América", como prometia Ray Krok), fale mais alto, estampando a suposta veia crítica na eterna formatização do biopic. E claro, a enésima variação do devoto percurso do herói que o cinema americano tanto adora abordar.

 

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Mas enfim, Keaton (que merecia a nomeação ao Óscar) é o rei deste filme que servirá como imenso estudo a um movimento sociopolítico do que propriamente Cinema, visto que nessa área tudo é cedido à fórmula industrial, como manda a lei McDonalds.

 

"You know what - contracts are like hearts, they are made to be broken."

 

Real.: John Lee Hancock / Int.: Michael Keaton, Nick Offerman, John Carroll Lynch, Laura Dern, Patrick Wilson, Linda Cardellini

 

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5/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:36
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7.3.17

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Foto: Mafalda Martins

 

Mariana Ximenes começou aos 17 anos no circuito das novelas, e desde então tem apostando numa abrangente carreira, quer televisiva, quer cinematográfica. Em alturas do FESTin, a actriz esteve presente na capital portuguesa para apresentar duas obras distintas. A primeira, A Prova de Coragem, a sua experiência na produção, e o segundo, a cumplicidade com um dos nomes maiores do cinema autoral brasileiro, Ruy Guerra, em Quase Memória. O Cinematograficamente Falando … falou sobre a criatividade no seu trabalho como profissional, e as obras que chegarão com algum entusiasmo ao público português.

 

Esta é a sua primeira vez em Lisboa?

 

Não, já estive mais vezes aqui em Lisboa, inclusive duas semanas em rodagem da longa-metragem de um realizador brasileiro maravilhoso e que fez História no Cinema, Cácá Diegues. O filme era O Grande Circo Místico, uma co-produção do Brasil, França e Portugal, contando com uma equipa maioritariamente portuguesa.

 

A Mariana é sobretudo uma "cara" conhecida das novelas da Globo, e esta sua faceta cinematográfica é praticamente desconhecida, por exemplo, para público português. Acredita que existe uma certa linguagem no pequeno ecrã que não existe, ou simplesmente não assiste, no grande ecrã?

 

Quando a Globo começou a produzir filmes, esse diálogo entre cinema e televisão se tornou cada vez maior. Mas por exemplo, começou a série Super Max, uma produção televisiva concretizada totalmente com uma equipa ditamente cinematográfica, ou seja, temos televisão sob moldes cinematográficos. Até um cameraman francês tivemos, este que usufrui do método "shoulder rigs", uma técnica não muito vulgar em produções televisivas.

 

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Sim, cada vez mais se debate entre Cinema e televisão, e sobretudo nos Festivais de Cinema (e como é bom vocês terem um festival de língua portuguesa) que proporcionam uma abertura maior para os filmes brasileiros.

 

Referindo ao FESTin, a Mariana encontra-se presente para apresentar dois filmes, inclusive a sua co-produção A Prova de Coragem. Quer falar-nos sobre essa experiência na produção?

 

Comecei a ser produtora para poder realizar os projectos que sempre sonhara fazer. Mas quanto ao A Prova de Coragem, na verdade, não é um projecto meu, nem sequer foi idealizado por mim, é sim fruto de Roberto Gervitz, e a adaptação de um livro dum escritor gaúcho chamado Daniel Galera. O livro chama-se "Mãos de Cavalo", o filme era para ter o mesmo título, mas foi decidido intitulá-lo de A Prova de Coragem. Apesar de gostar do título original, porque simplesmente funciona como uma metáfora à coragem.

 

O filme aborda o drama da mulher contemporânea, que é o de ser mãe e conciliar com a carreira profissional, além de retratar o relacionamento e as dificuldades que existem numa relação de hoje em dia. Para este filme, cujo tema central é o montanhismo, tive que aprender a escalar, frequentei um curso e subi o Monte Babilónia, que fica no Rio. Foi um experiência fascinante, agora posso sim afirmar, que amo escalar.

 

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Em A Prova de Coragem, nós filmamos em locais bastante belos como a serra gaúcha. Da mesma forma que a minha personagem gosta de escalar, também tem uma paixão por fotografia, o que tem um certo relacionamento comigo, porque também tenho um curso de fotografia [risos].

 

Mas como nasceu essa decisão de virar-se para a produção?

 

Sou uma mulher que já fez mais de 20 filmes. Adoro fazer cinema ... simplesmente adoro, e por causa disso comecei a produzir. A minha carreira enquanto produtora já conta com mais de 4 filmes, dois deles como produtora associada. No caso de O Prova de Coragem, sou produtora associada, e gostei de envolver-me nesse processo de criação, porque agregamos elenco, equipa, todos aqueles que sempre quisemos trabalhar. Tenho esse encantamento pela envolvência nos meus projectos, como se diz, gosto de "meter mãos à obra".

 

Iremos ver num futuro próximo, uma Mariana Ximenes como realizadora?

 

Dirigir? Assim sozinha? Não tenho vontade, não. Sinto o desejo, e cada vez mais, de participar no processo criativo e o olhar de cada pessoa, tanto do director de fotografia, o de cinematografia, caracterização, figurino, de outro actor. Adoro o jogo, o de contracenar, assim como o de ambientes, o de criar espaços. Digo que sou bastante curiosa.

 

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Director de fotografia? Está disposta a experimentar o cargo de direcção fotográfica?

 

Director de fotografia? [risos]. Não sei se vou ser porque é um cargo muito difícil. Sou mais sentida na criação de diálogos e o que me interessa mesmo são os processos criativos.

 

Em relação ao segundo filme do FESTin, Quase Memória. Como foi trabalhar com o "lendário" realizador Ruy Guerra?

 

Uma aula. Diariamente. Não só uma aula de cinema, mas de vida. Ruy Guerra tem 80 anos e mesmo assim, possui muita energia. Para perceberes, nós filmávamos de madrugada.

 

De madrugada?

 

Sim, 12 horas de madrugada, no frio de Minas Gerais e ele estava ali, firme e forte. Foi um procedimento muito intenso. Aceitei o papel para ficar perto dele, é lindo de ver, ele com mais de 80 anos, filmando, fazendo o seu Cinema.

 

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Ruy Guerra estava ausente do Cinema por mais de 10 anos, a Mariana, de certa parte, faz parte desse seu regresso.

 

Sim, esteve fora por mais de uma década, que nem o Roberto Gervitz, o realizador do Prova de Coragem. Ele também estava 10 anos sem fazer um filme.

 

Fazer cinema é muito difícil, o de conseguir investimento e recursos para fazer um filme, não é tarefa fácil. Por isso, é louvável que um realizador tão renomado como o Ruy consiga investimento para poder filmar. Também me interessa projectos alternativos, como Super Max, por exemplo, que é uma experimentação. Gosto de ousadia, de experimentar, quando apostamos em projectos diferentes temos prosperidades de ampliar os olhares. Pode-se acertar como se pode errar, mas o risco está lá. O meu objectivo é aprender com o processo, como exercício de fazer.

 

Então, esta é a sua face mais autoral. Mas dentro da produção brasileira podemos encontrar obras de gostos diferentes, quer o mainstream da Globo, até ao cinema mais independente e autoral, como o do Ruy Guerra. O que a faz interessar-se por ambos os lados?

 

Menciono que A Prova de Coragem, assim como o Quase Memória são dois projectos diferentes e até estou querendo trazer os meus outros filmes para cá [risos]. Para termos a possibilidade de discutir isso mesmo, a diversidade da produção no Brasil. E isso é de valor, diversificar mais para podermos experimentar. Acrescento que Super Max, também, em certo jeito, é uma experimentação da Globo. Como já havia referido, sou completamente interessada nessas experiências, qual seja o lado que se possa experimentar. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:57
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6.3.17

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O cavaleiro que desafiou o dragão!

 

Mais do que a construção de um martírio e a procura de um mártir, São Jorge nos invoca episódios silenciados, a austeridade que surgiu de arrasto pela passagem da Troika, e a revelação de uma selva de asfalto, onde a primitiva regra de sobrevivência se faz ouvir.

 

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Nuno Lopes, que de anjo nada tem, é um desses seres que planeia cada dia como o último. Ligado a uma carreira falhada no pugilismo, consegue um trabalho obscuro como colector de dívidas. Um cargo que embate de forma consciente com as morais que imperam nesta sua jornada pelos confins da inserção social e da mordaz crítica política (sem ser obviamente evidente). Traços que levam o nosso protagonista novamente a assumir-se como vítima de mais uma busca desesperada, sendo acompanhado pela mesma "câmara incomoda" de há 11 anos , em Alice.

 

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Marco Martins é esse maestro "repetente", e a orquestra, essa, lentamente liberta o seu furtivo crescendo, para ser depois seduzido a um perturbador fade out. Este é o cinema que o romeno Cristian Mungiu sempre procurou, a cumplicidade do realismo formal com o juízo de valores, maleável à nossa consciência politica e idealista, ou até a sugestiva perturbação que se ressalta como stalker, tão próprio da mão de Haneke. Pois, mas o estilo de Marco Martins apenas deduz-nos a essas referências, porque existe nele uma veia profundamente portuguesa que vai desde aquele pessimismo orgulhoso, àquela infelicidade longe do fim e sobretudo da espera, a eterna  frase do "dia melhor que nunca vem". Contudo, existe uma declaração que afasta São Jorge do formalismo do cinema nacional.

 

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Uma voz política que parece mais consciente que o percurso do protagonista (... e que protagonista!) confrontando-nos com as mais demarcadas morais. Mas não pensem que daqui encontraremos um filme moralista, antes sim, um filme sobre morais. Perturbador, desencantado e ... um poderoso retrato de violência social.

 

Real.: Marcos Martins / Int.: Nuno Lopes, Mariana Nunes, David Semedo, José Raposo, Gonçalo Waddington, Adriano Luz, Beatriz Batarda

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:49
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5.3.17
5.3.17

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A antologia do biopic!

 

Em Neruda, a promessa de uma biopic convencional do poeta e activista politico é em vão. Pablo Larraín esmiúça-se sobre outro Pablo, e através desta união invoca uma liberdade que não parece encontrar lugar no subgénero. É como se Neruda fosse idealizado pelo próprio Neruda, uma evasão ficcionada que facilmente se encontraria no imaginário do homenageado, mais do que a visão do espectador.

 

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Existe nesta metragem uma desfragmentação de todos os códigos assim aprendidos e instantaneamente abandonados pelo realizador desde o muito consensual Não, ou até do toque mais intimista e reservado de El Clube. Em Neruda o que está em jogo é a narração, mais do que a própria narrativa, quanto à fidelidade histórica, non troppo, o ficcionar de vidas estabelecidas, inserindo neste jogo personagens inexistentes e explicitar a biografia da existência memorial, acima da existência física. Sim, Larraín joga-se aos retalhos com a ferocidade de um esquartejador. O golpear de diálogos em prol de um raccord soluçante, os planos reféns de uma profundidade quase "velazquiana", a falsa narração de personagens ausentes e até mesmo um twist que desafia a própria natureza do registo. Tudo com a graça e encanto de um elenco capaz de disfarçar esta tão deliciosa farsa (a estrutura policial) sob condimentos políticos, e deveras de salientar, acidamente politizados.

 

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Luis Gnecco apresenta essa figura de um ego do tamanho do Mundo [Neruda], o burguês que secretamente integra o partido comunista, como uma força inesperada no combate a um regime, onde a sua palavra funciona como a mais poderosa das suas armas. Seguindo de perto, um Gael Garcia Bernal que o persegue sem perceber que como perseguidor converte-se no mais indefeso perseguido. Egocentrismo e ciclos experimentais de não-lugares e não-personagens, tópicos que afrontam em Neruda, e aos dois Pablos, a anti-sintetização da memória, não como uma formatização, mas como uma página em branco a merecer da escritura.

 

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Enquanto isso, indicamos um dos grandes equívocos das distribuidoras, lançar Neruda depois de Jackie (visto que o filme foi produzido antes da biografia com Natalie Portman), o esboço da sua oficializada entrada no mercado de Hollywood. Mesmo assim, Neruda é digno do seu próprio feito. 

 

Real.: Pablo Larraín / Int.: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Mercedes Morán

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:56
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3.3.17

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Em terra de monstros, Kong é o rei.

 

Um gorila colossal no topo do Empire State Building, afastando violentamente os caças que desesperadamente o tentam  abater, defendendo-se igualmente e protegendo a sua não correspondida amada. Será que existe imagem tão universalmente identificável no Cinema como o climax de King Kong? Obviamente que não, e não estamos aqui para enganar ninguém. Kong: Skull Island não está aqui para tirar o lugar ao filme de 1933,  mas surge como uma variação comercialmente fiável para um futuro universo partilhado. Pois, não é spoiler. Já se sabe que este símio do tamanho de um arranha-céus vai enfrentar Godzilla numa futura produção.

 

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Mas já que temos que "gramar" com um revisitar à tão icónica figura da sétima arte, porque não aceitar o que de bom tem esta aventura tecnológica? São vários pontos, aliás, a começar pelos momentos em que o realizador Jordan Vogt-Roberts (do filme indie King of Summer) tenta contrariar a linguagem visual básica das grandes produções. Cenas como a da libelinha a mimetizar uns helicópteros saídos da ataque-naplam de Apocalypse Now, fazem-nos de certa forma salivar por mais desses mimos. E o que dizer da troca de olhares entre Samuel L. Jackson e a nossa besta? Mas estes "5 minutos de paraíso" que Vogt-Roberts parece usufruir de vez em quando têm um senão. Tal como uma troca de cromos, há que apostar no já batido ... e até invocar um certo estilo à lá Zack Snyder para corresponder aos requisitos estéticos das novas audiências.

 

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Segundo ponto, a conservação do clássico filme de aventuras. Kong: Skull Island, dentro da sua agenda da Hollywood tecnológica, emana um espírito "aventureiro" algo perdido no nosso cinema. Será que tal sensação parece apenas reavivada nas incursões de King Kong (já a subvalorizada versão de 2005 respeitava o subgénero)? Terceiro ponto, e talvez o mais desafiante desta produção: a febre da Guerra explicitada na rivalidade acidentalmente criada por Samuel L. Jackson, em modo "Hurt Locker", e o nosso Kong. A fúria dos olhares, quer reais (do actor), quer artificiais (a do símio digital), e a procura de um inimigo como fermento para uma sociedade à beira da ebulição conflitual - "Nós encontramos os inimigos quando os procuramos". Tudo servido, com certa leveza (ou seja, contado para miúdos), como catarse para a memória bélica do nosso século XX.

 

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O resto é o costume do actual panorama industrial: personagens básicas e construídas consoante as necessidades do guião (mesmo com um John C. Reilly em boa forma) e não o oposto; o climax a dever demasiado aos efeitos visuais e ao espalhafato dos mesmos; e a impressão de assistir a uma reciclagem do guião de Godzilla (2015). Factores estes que constroem a rotina do espectáculo cinematográfico à lá IMAX. Ainda assim, é certo que existe muito mais em Kong do que a mera artificialidade pagã. Sim, muito melhor que o esperado, mas não a Oitava Maravilha do Mundo.

 

"This planet doesn't belong to us. Ancient species owned this earth long before mankind. I spent 30 years trying to prove the truth: monsters exist."

 

Real.: Jordan Vogt-Roberts / Int.: Tom Hiddleston, Samuel L. Jackson, Brie Larson, John C. Reilly, John Goodman, Corey Hawkins, Toby Kebbell, Richard Jenkins

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 22:01
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Land+Moon+Mal+De+Pierres+Red+Carpet+Arrivals+YJR6e

O "amour fou" (amor louco) de Marion Cottilard levou-a a ser uma das principais candidatas ao prémio de Melhor Interpretação feminina no Festival de Cannes de 2016. Apesar de não ter vencido, a mais requisitada actriz francesa do momento, ofereceu-nos uma personagem fascinante, perdida num romance, algures entre o sacrilégio e o sagrado, acidentalmente estampada na realidade e na fantasia. Para dirigir uma actriz deste calibre foi preciso uma outra actriz, Nicole Garcia, vindo da velha guarda do Cinema "gaulês". Uma interprete que descobriu um outro amor para além da representação, a paixão da realização e do desdobramento das personagens que parecem ganhar vida no grande ecrã. O Cinematograficamente Falando … falou com a mulher por detrás de Mal de Pierres, a adaptação do bestseller de Milena Agus, um desafio às próprias convenções do romance estabelecido.

 

Porquê a escolha do livro de Milena Agus? O que fascinou nesta obra para a adaptá-la?

 

Sinceramente não sei. Quando comecei a ler o livro, apenas o fiz com o prazer da leitura e não no intuito de procurar o meu próximo filme. Foi recomendado por um amigo meu, aclamando que seria obrigatório "ler este livro de 2006". Então fiz, comecei a folheá-lo no Aeroporto de Paris e o terminei durante o meu voo para Marselha. Admirada com esta experiência, corri logo em busca dos direitos da obra. Queria adaptá-lo para o grande ecrã e queria ser eu a fazê-lo.

 

Havia algo neste livro que me dizia muito, provavelmente o facto da protagonista ser uma mulher que pensa que todos os outros a recusam, cuja mãe constantemente a apelida de "louca", chegando a fechá-la num hospital psiquiátrico e tudo. Mas no fundo, é uma mulher forte e selvagem, e essas características assustavam as restantes pessoas. Porém, mantinha uma certa fragilidade. Porque ela procurava algo sexual e sagrado. Para ela, como para mim, encontram-se no mesmo patamar [risos].

 

Mas ela conhece que tais oposições existem no seu todo, porque depara com tais descrições na literatura, nos livros que lê, assim como na vida.

 

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Marion Cottilard foi a sua primeira escolha para o papel? Imaginava-a como a protagonista de Mal de Pierres?

 

Determinada a adaptar o bestseller, mentalizei-me que teria que ter a melhor actriz para começar. Teria que ser capaz de encarnar este mistério, algo que a própria ainda não havia explorado ainda, possuir um certo carácter indomável e ser, sobretudo, dura. Não cair no erro da melancolia e da doçura, até porque existe na personagem um desejo ardente que a mantêm forte. Então imaginei Marion Cottilard. E o resultado está à vista, ela conseguiu captar isto que referi nela, assim como muito mais. Um toque de sensibilidade humana. Vi nela a fazer algo idêntico como fizera na sua interpretação de Edith Piaf [La Vie en Rose], que fora um desempenho magistral por parte dela.

 

Acredita, que como realizadora, encontra-se melhor em cada filme?

 

Sim, acredito, assim como acreditava que no meu filme anterior, Un Beau Dimanche, também estaria a aperfeiçoar-me. Estou a melhorar no contexto da direcção, assim como na maneira de contar uma história.

 

Nicole Garcia começou como actriz, mas agora parece ter abandonado o cargo para dedicar-se com mais tempo à realização. Deseja voltar a actuar?

 

Continuo a ser uma actriz, mas como dedico demasiado tempo na realização, o qual não sobra muito para a actuação. Mas continuo a ser uma actriz.

 

Ainda como actriz, trabalhou com alguns dos mais influentes realizadores do cinema francês, tais como Renais, Rivette, Tavernier ou Lelouch. Aprendeu alguma coisa com eles acerca da realização, ou seguiu algum conselho destes para esta arte?

Não. Porque quando era actriz, era o tempo todo somente actriz. Não tinha o desejo de seguir a realização. Aliás, nunca passava pela cabeça que um dia seria realizadora, nada disso. Tudo começou quando filmava uma curta-metragem, durante as minhas férias. Bem, mais um filme caseiro, uma pequena brincadeira, mas quando comecei a editar este pequeno filme, tive então a revelação. Foi na edição que me fez gostar do trabalho de realização. E foi quando estreei a minha curta em Cannes, senti-me determinada em elaborar a minha primeira longa-metragem.

 

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Mas voltando à questão inicial, nunca recebi nenhum conselho, nem nunca aprendi com nenhum dos realizadores pelo qual eu trabalhei anteriormente. Tudo nasceu do meu instinto.

 

E como dirige os seus actores? Utiliza a sua experiência como atriz para os coordenar?

 

Apenas dirijo os meus actores nas duas primeiras semanas, falo com eles, dou-lhe conselhos, exponho aquilo que pretendo da personagem, mas depois o desenvolvimento nasce deles. Não me intrometo na sua actuação, nem tento controlar à risca a fluidez da personagem, esta tem que ser livre, portanto, porquê colocar travões. Até porque o meu objectivo é sempre contratar (muito) bons actores para os meus filmes. Pessoas capazes de dar vida às personagens que imagino.

 

Em relação a novos projectos?

O meu próximo filme será uma história contemporânea decorrida nos anos 50, e que remeterá o amor entre dois homens, mas não o tipo de amor "romanesco", mas sim de natureza mais negra e provavelmente com ligação a um homicídio. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:10
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1.3.17

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Não é novidade nenhuma que chegará no próximo mês de Maio, um novo capítulo da saga Alien. Desta vez marcado pelo regresso de Ridley Scott às "rédeas" do franchise que o próprio inaugurou em 1979, e que segundo consta, terá ligações diretas com Prometheus.

 

Alien: Covenant remete-nos à tripulação de uma nave colonial que descobre uma paraíso intocável, mas igualmente mortal. Escusado será dizer que os lendários xenomorfos irão regressar para espalhar o pouco mais do seu mais interminável terror.

 

Michael Fassbender, Katherine Waterston, James Franco, Noomi Rapace, Guy Pearce, Billy Crudup e Danny McBride completam o elenco.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:57
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